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Imaginação ativa: estudo aponta nova abordagem terapêutica para reduzir o medo de fracassar

Pesquisa com 180 jovens adultos indica que uma técnica de psicoterapia baseada na reescrita de lembranças difíceis da infância pode diminuir medo de fracasso, culpa e tristeza por até seis meses

Experiências de crítica vividas na infância podem continuar influenciando a maneira como uma pessoa encara desafios muitos anos depois. Um novo estudo realizado por pesquisadores da Polônia sugere, porém, que a relação emocional com essas lembranças pode ser modificada.

Publicado no periódico Frontiers in Psychology, o trabalho avaliou uma técnica de psicoterapia conhecida como Reescrita de Imagens, na qual o paciente revisita mentalmente uma lembrança difícil e cria uma nova versão da situação, com a presença de proteção e apoio.

A pesquisa envolveu 180 jovens adultos, entre 18 e 35 anos, que apresentavam níveis elevados de medo de fracasso. Os participantes foram acompanhados durante seis meses após as intervenções.

Como funciona a técnica

Durante duas semanas, os voluntários participaram de quatro sessões direcionadas a uma lembrança específica de crítica experimentada durante a infância.

Eles foram divididos em três grupos. O primeiro passou pela chamada Exposição por Imagens, em que a pessoa simplesmente revive mentalmente a situação original, sem modificar seu desfecho.

Os outros dois grupos utilizaram a Reescrita de Imagens. Nessa abordagem, o participante recuperava a lembrança da crítica e, depois, imaginava uma figura protetora — como um terapeuta — intervindo na situação, confrontando quem havia feito a crítica e oferecendo proteção à criança que ele próprio foi.

A diferença entre os dois grupos de reescrita estava no momento da intervenção. Em um deles, a nova cena era imaginada imediatamente. No outro, os participantes aguardavam cerca de dez minutos antes de realizar a reescrita.

O intervalo foi pensado para explorar um fenômeno conhecido como reconsolidação da memória. Quando uma lembrança é recuperada, ela pode passar temporariamente por um período em que se torna mais suscetível a modificações antes de ser novamente armazenada.

Medo de fracassar diminuiu

As três abordagens apresentaram redução significativa do medo de fracasso. Também foram observadas diminuições nos níveis de tristeza e culpa associados às lembranças negativas.

Os pesquisadores avaliaram ainda as respostas fisiológicas dos participantes por meio da condutância da pele, uma medida utilizada para identificar alterações na ativação do sistema nervoso.

Os resultados indicaram uma redução da reatividade física diante das lembranças de crítica. Os efeitos permaneceram nas avaliações realizadas três e seis meses depois.

Segundo os pesquisadores, isso sugere que o benefício não ficou restrito ao momento da terapia, embora o estudo não permita afirmar que a técnica seja responsável, sozinha, por todas as mudanças observadas.

A surpresa pode ter papel importante

Um dos resultados que mais chamou a atenção da equipe foi a importância do chamado erro de predição.

O conceito descreve a diferença entre aquilo que uma pessoa espera que aconteça e o que efetivamente acontece. Na reescrita das lembranças, isso pode ocorrer quando alguém espera reviver novamente uma situação de crítica, mas encontra, na nova versão imaginada, uma resposta de proteção e acolhimento.

Os pesquisadores observaram que a reescrita apresentou resultados mais consistentes quando envolvia esse elemento de surpresa.

A hipótese é que essa quebra de expectativa possa contribuir para modificar a maneira como a lembrança é processada emocionalmente, tornando-a menos associada a sentimentos negativos.

Resultado contrariou hipótese inicial

Os cientistas esperavam que o intervalo de dez minutos entre a lembrança original e sua reescrita pudesse produzir efeitos ainda mais fortes, justamente por explorar o período de maior maleabilidade associado à reconsolidação da memória.

Isso, porém, não foi confirmado.

As análises apontaram benefícios mais consistentes entre os participantes que fizeram a reescrita imediatamente. Já o grupo submetido apenas à exposição apresentou retorno parcial de alguns sintomas em determinadas avaliações posteriores.

Memórias difíceis podem ganhar novos significados

Para os autores, os resultados reforçam a ideia de que uma lembrança não precisa permanecer emocionalmente inalterada ao longo da vida.

Isso não significa apagar ou modificar literalmente o acontecimento passado. A proposta é alterar a forma como a pessoa se relaciona emocionalmente com aquela experiência, criando novas associações durante o processo terapêutico.

O estudo, entretanto, possui limitações. A maior parte dos participantes era formada por mulheres jovens e estudantes universitárias, o que restringe a possibilidade de generalizar os resultados para toda a população.

Ainda assim, a pesquisa contribui para o entendimento de como técnicas baseadas em imaginação podem ser utilizadas na psicoterapia para trabalhar lembranças relacionadas à crítica, culpa e medo de fracassar.

Mais estudos serão necessários para determinar quais pessoas podem se beneficiar mais da abordagem, por quanto tempo os efeitos permanecem e como a técnica se compara a outras formas de psicoterapia.

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