Negociações internacionais de 2026 reforçam que enfrentar o aquecimento global também exige recuperar terras degradadas, proteger a biodiversidade e preparar territórios para eventos extremos
O calendário ambiental internacional de 2026 coloca em sequência três importantes negociações multilaterais: a COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, realizada em agosto na Mongólia; a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, prevista para outubro na Armênia; e a COP31 do Clima, que será realizada em novembro na Turquia.
Embora cada uma dessas conferências tenha objetivos específicos, os desafios discutidos por elas estão cada vez mais conectados. Secas, degradação dos solos, perda de biodiversidade, escassez hídrica e mudanças no clima afetam os mesmos territórios e exigem respostas que ultrapassem os limites de uma única política ambiental.
A principal mensagem que emerge desse cenário é que não há adaptação climática duradoura sem natureza protegida, solo saudável e segurança hídrica.
Terra degradada também é um problema climático
A agenda de combate à desertificação ganhou destaque na COP17 realizada na Mongólia. A convenção busca estimular ações contra a degradação da terra, reduzir os impactos das secas e promover formas mais sustentáveis de utilização dos recursos naturais.
Para o Brasil, um dos principais compromissos relacionados a essa agenda é a meta de Neutralidade da Degradação da Terra, conhecida como LDN, que prevê a recuperação de 16,3 milhões de hectares de áreas degradadas até 2030.
O cumprimento dessa meta representa um desafio de grande escala, mas também uma oportunidade. A recuperação de solos, nascentes e paisagens degradadas pode aumentar a capacidade dos territórios de enfrentar períodos de seca, melhorar a disponibilidade de água e fortalecer atividades produtivas no campo.
No Cerrado e na Caatinga, por exemplo, iniciativas de restauração de bacias hidrográficas e adoção de práticas agrícolas mais resilientes podem produzir benefícios simultâneos para o clima, a biodiversidade e a produção rural.
Restauração é investimento em resiliência
Outro ponto importante discutido na agenda de combate à desertificação é o financiamento.
A necessidade global de recursos para restaurar terras degradadas e fortalecer a preparação contra as secas ainda é muito superior ao dinheiro disponível. Nesse contexto, a criação do Mecanismo de Investimento para a Resiliência à Seca, o DRIF, surge como uma tentativa de ampliar o financiamento destinado especificamente à prevenção e à preparação para períodos de estiagem.
Também foram anunciados recursos novos ou em estruturação para projetos de restauração e resiliência em diferentes países.
A mudança de abordagem é significativa: em vez de concentrar esforços apenas na resposta depois que uma seca provoca danos, a estratégia busca preparar comunidades e territórios antes que os impactos aconteçam.
Essa lógica também se aplica às mudanças climáticas. Quanto mais preparados estiverem os ecossistemas, cidades, propriedades rurais e sistemas de abastecimento, menores tendem a ser os impactos sociais e econômicos dos eventos extremos.
Biodiversidade entra no centro da discussão
Em outubro, a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica deverá ampliar essa discussão ao realizar o primeiro balanço global sobre o avanço das metas estabelecidas pelo Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal.
Entre os compromissos mais conhecidos está a chamada meta 30×30, que prevê a conservação de pelo menos 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até 2030.
O desafio, entretanto, não está apenas em estabelecer áreas protegidas. É necessário acompanhar os impactos de setores como agricultura, mineração, infraestrutura e expansão urbana sobre os ecossistemas.
Decisões tomadas atualmente sobre ocupação territorial e grandes obras podem produzir consequências durante décadas. Ao mesmo tempo, o aumento das temperaturas e a ocorrência de eventos climáticos extremos pressionam ainda mais os sistemas naturais.
Por isso, conservação da biodiversidade precisa deixar de ser tratada como uma questão isolada do planejamento econômico. A natureza também fornece serviços essenciais, como regulação do clima, proteção dos solos, armazenamento de carbono, polinização e manutenção dos recursos hídricos.
A adaptação conecta as três agendas
É justamente na adaptação climática que as três convenções encontram um dos seus principais pontos de convergência.
Preparar uma região para períodos prolongados de seca, por exemplo, envolve muito mais do que construir reservatórios ou criar sistemas emergenciais de abastecimento. Também significa conservar nascentes, recuperar matas ciliares, proteger o solo, manter áreas de vegetação nativa e adotar práticas produtivas capazes de suportar condições climáticas mais adversas.
A resiliência, portanto, começa antes da chegada do evento extremo.
Ela é construída por meio de decisões sobre planejamento territorial, conservação ambiental, infraestrutura, agricultura, recursos hídricos e investimentos públicos e privados.
Florestas também são parte da solução
As florestas tropicais representam outro ponto de encontro entre clima, biodiversidade e desenvolvimento.
Manter esses ecossistemas preservados contribui para a estabilidade climática, a proteção da biodiversidade e a segurança hídrica. Ao mesmo tempo, povos indígenas e comunidades tradicionais desempenham papel fundamental na conservação de extensos territórios.
Nesse contexto, mecanismos como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, conhecido como TFFF, buscam criar incentivos financeiros de longo prazo para a conservação das florestas tropicais.
A ideia reforça uma constatação importante: proteger a natureza também precisa ser economicamente viável para os países, comunidades e populações que vivem nesses territórios.
O desafio agora é transformar compromissos em políticas
As três convenções possuem estruturas e processos de negociação próprios. Na prática, porém, os compromissos assumidos pelos governos precisam ser executados nos mesmos territórios.
Isso exige maior integração entre órgãos ambientais, áreas de planejamento, infraestrutura, agricultura, recursos hídricos e finanças.
Também significa aproximar as decisões internacionais das políticas estaduais e municipais, onde muitas das ações de restauração, conservação e adaptação efetivamente acontecem.
O financiamento será decisivo nesse processo. Recursos para adaptação climática, recuperação de áreas degradadas, proteção da biodiversidade e conservação das florestas precisam ser mais previsíveis e acessíveis, especialmente para regiões e comunidades mais vulneráveis.
Um calendário para conectar soluções
O calendário ambiental de 2026 oferece uma oportunidade para aproximar agendas que, durante muito tempo, foram tratadas separadamente.
A experiência da COP17 de Desertificação reforça a importância da recuperação das terras e da preparação para as secas. A COP17 de Biodiversidade deverá avaliar o avanço dos compromissos de conservação. E a COP31 terá entre seus grandes desafios acelerar a implementação das ações de enfrentamento às mudanças climáticas.
No fim, os três caminhos levam ao mesmo território.
Cuidar do solo, preservar a biodiversidade, proteger a água e reduzir os impactos das mudanças climáticas são partes de uma mesma estratégia de resiliência.
Mais do que criar novas metas, o desafio dos próximos anos será transformar compromissos internacionais em investimentos, políticas públicas e ações concretas capazes de preparar comunidades e ecossistemas para um planeta em transformação.


