Teste mede no sangue a proteína pTau217, associada às alterações causadas pelo Alzheimer, e pode ajudar a tornar a investigação da doença menos invasiva
Uma nova ferramenta para auxiliar na investigação da doença de Alzheimer está chegando ao Brasil: o Elecsys pTau217, exame de sangue desenvolvido pela Roche Diagnóstica para identificar a presença de um biomarcador relacionado às alterações amiloides observadas no cérebro de pessoas com a doença.
A tecnologia utiliza uma simples amostra de sangue para medir a concentração da proteína Tau fosforilada na posição 217, conhecida como pTau217. A presença de níveis alterados desse biomarcador está associada à patologia amiloide, uma das características biológicas do Alzheimer.
A novidade pode representar uma mudança importante em uma etapa da investigação que, em determinadas situações, exige exames mais complexos, como o PET para avaliação de placas amiloides ou a análise do líquido cefalorraquidiano (LCR) obtido por punção lombar.
Isso não significa, porém, que o exame de sangue sozinho seja capaz de diagnosticar Alzheimer.
O resultado precisa ser interpretado por um profissional de saúde dentro do contexto clínico do paciente. A avaliação médica continua sendo fundamental para analisar sintomas, histórico, funcionamento cognitivo e outros exames.
Como funciona o novo exame
O pTau217 é uma forma modificada da proteína Tau. Pesquisas mostram que seus níveis no sangue podem se relacionar à presença de alterações amiloides no cérebro.
Um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista científica Alzheimer’s & Dementia avaliou o desempenho do imunoensaio Elecsys pTau217 em 2.148 pessoas de cinco grupos de pesquisa. Os resultados foram comparados com exames de PET amiloide, considerados uma referência para identificar a presença dessas alterações.
Os pesquisadores encontraram concentrações diferentes de pTau217 entre participantes com e sem alterações amiloides. O estudo também apontou desempenho elevado do biomarcador para identificar pessoas com maior ou menor probabilidade de apresentar essa patologia.
Na prática, o exame pode ajudar o médico a decidir quais pacientes precisam avançar para uma investigação mais detalhada.
Um resultado que indique baixa probabilidade de alterações amiloides pode, em determinados contextos, evitar que o paciente seja encaminhado imediatamente para procedimentos mais complexos. Já um resultado compatível com a presença da patologia pode reforçar a necessidade de exames complementares.
Exame de sangue não substitui o diagnóstico médico
Apesar de ser menos invasivo, o teste não deve ser confundido com um diagnóstico definitivo feito de forma isolada.
O Alzheimer é uma doença complexa, e alterações de memória podem ter diferentes causas. Por isso, a investigação costuma envolver avaliação clínica, histórico do paciente, testes cognitivos e, quando necessário, exames de imagem ou análise de biomarcadores.
O próprio estudo que avaliou o Elecsys pTau217 destaca o potencial do teste como ferramenta para auxiliar na identificação da patologia amiloide, e não como substituto automático de toda a avaliação clínica.
Outro ponto importante é que os resultados de exames de sangue para Alzheimer dependem dos critérios utilizados, do método empregado e da população avaliada. Estudos recentes continuam investigando como esses biomarcadores podem ser incorporados à rotina médica.
Uma coleta de sangue pode reduzir etapas mais invasivas
Atualmente, a investigação de alterações associadas ao Alzheimer pode envolver diferentes métodos.
O PET amiloide, por exemplo, utiliza uma técnica de imagem capaz de identificar depósitos de proteína amiloide no cérebro. Já a análise do líquido cefalorraquidiano exige uma punção lombar, procedimento no qual uma pequena quantidade do líquido que circula ao redor do cérebro e da medula é coletada para análise.
O exame de sangue não elimina necessariamente a necessidade desses procedimentos. A principal possibilidade é utilizá-lo como uma ferramenta adicional para selecionar melhor os pacientes que precisam avançar para etapas mais complexas.
Esse tipo de estratégia é especialmente relevante porque os biomarcadores sanguíneos vêm sendo estudados justamente como alternativas menos invasivas para ajudar a identificar a presença ou ausência de alterações relacionadas ao Alzheimer.
Brasil ainda enfrenta desafio para diagnosticar demências
A chegada de novas ferramentas ocorre em um cenário no qual muitas pessoas com demência ainda não recebem diagnóstico.
Um estudo baseado no ELSI-Brasil, publicado em 2026 no International Journal of Geriatric Psychiatry, analisou dados de 5.249 brasileiros com 60 anos ou mais. Entre eles, 392 preencheram os critérios utilizados pelos pesquisadores para identificar demência.
Do grupo que apresentava critérios para demência, 83,1% não tinham recebido diagnóstico médico anteriormente.
O problema foi ainda mais frequente em regiões socioeconomicamente mais vulneráveis: o percentual de pessoas sem diagnóstico anterior chegou a 90,2%, contra 76% nas regiões mais favorecidas.
Os pesquisadores ressaltam que o estudo trata de demência em geral, e não exclusivamente da doença de Alzheimer. Portanto, esses números não representam a quantidade de brasileiros que necessariamente seriam candidatos ao novo exame de sangue.
Eles ajudam, porém, a dimensionar um dos desafios da saúde pública: reconhecer alterações cognitivas e fazer com que o paciente tenha acesso à investigação adequada.
Novos tratamentos aumentam importância da confirmação da doença
A busca por métodos mais simples de identificação da doença também acontece em um momento de transformação no tratamento do Alzheimer.
Em janeiro de 2026, por exemplo, a Anvisa aprovou no Brasil o lecanemabe, medicamento indicado para pacientes adultos com comprometimento cognitivo leve ou demência leve decorrentes do Alzheimer, desde que haja confirmação da patologia amiloide e sejam atendidos os demais critérios previstos no registro.
Esse cenário aumenta a importância de métodos capazes de identificar biomarcadores relacionados à doença com maior praticidade.
Ainda assim, a utilização de um exame de sangue precisa estar integrada à avaliação médica. O resultado não deve ser interpretado isoladamente nem utilizado para iniciar ou interromper tratamento por conta própria.
O que muda para o paciente
A principal mudança proporcionada pela tecnologia está na possibilidade de obter informações importantes sobre a presença de alterações associadas ao Alzheimer por meio de uma coleta de sangue, procedimento mais simples e menos invasivo do que uma punção lombar.
A expectativa é que, à medida que esse tipo de exame seja incorporado à prática clínica, ele possa ajudar médicos a selecionar melhor quais pacientes precisam de investigações complementares.
A disponibilidade, o preço e o acesso ao teste, entretanto, ainda são pontos que precisam ser acompanhados no Brasil. A autorização regulatória de uma tecnologia também não significa que ela esteja imediatamente disponível em todos os laboratórios ou incorporada automaticamente ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Para quem apresenta mudanças persistentes de memória, dificuldade para realizar tarefas habituais ou outras alterações cognitivas, a orientação continua sendo procurar avaliação médica. O diagnóstico precoce pode ajudar a esclarecer a causa dos sintomas e orientar os próximos passos do cuidado.


