Em Unaí (MG), Ed Lima transforma tecnologia em solidariedade ao produzir, de forma personalizada e gratuita, equipamentos que ajudam crianças com deficiência a explorar o mundo com mais autonomia
Uma impressora 3D, que poderia ser usada apenas para criar objetos, peças e protótipos, ganhou uma missão muito maior nas mãos do físico Ed Lima, de Unaí, em Minas Gerais. Ele utiliza a tecnologia para produzir equipamentos de mobilidade personalizados para crianças com deficiência e entregá-los gratuitamente às famílias.
O projeto nasceu de uma combinação entre curiosidade, experiência profissional e vontade de ajudar. Ed trabalha com radioterapia e convive profissionalmente com crianças em tratamento contra o câncer. Além disso, dois de seus primos têm paralisia cerebral, experiência que o aproximou ainda mais dos desafios enfrentados por pessoas com deficiência.
Hoje, o trabalho realizado em seu estúdio já alcança famílias de diferentes estados brasileiros. Segundo informações divulgadas sobre o projeto, três equipamentos já foram entregues e dezenas de crianças aguardam atendimento. Em julho, a fila reunia 83 crianças cadastradas.
Da primeira impressão a um projeto de inclusão
A relação de Ed com a impressão 3D começou de maneira bastante diferente. Ele comprou sua primeira impressora com a intenção de produzir uma peça para o aniversário do filho. Depois de enfrentar dificuldades até conseguir concluir o objeto, percebeu que aquela tecnologia poderia ter aplicações muito mais importantes.
A partir daí, começou a pesquisar maneiras de utilizar a impressão 3D para criar soluções acessíveis.

O projeto que ganhou maior destaque é o dos equipamentos de mobilidade infantil. Ed utiliza um modelo de código aberto desenvolvido pela organização norte-americana MakeGood, que trabalha com dispositivos assistivos para pessoas com deficiência.
O projeto da MakeGood foi desenvolvido justamente para crianças pequenas que ainda não conseguem engatinhar ou caminhar de forma independente, mas já têm interesse e capacidade de explorar o ambiente. O equipamento foi pensado para crianças de aproximadamente 1 a 8 anos.
Um equipamento feito para cada criança
Uma das características do trabalho de Ed é a personalização. As peças são produzidas considerando as características e medidas de cada criança, além de receberem cores e detalhes que tornam o equipamento mais acolhedor e infantil.
O modelo utilizado pelo projeto brasileiro é destinado principalmente a crianças de até cerca de 23 quilos. A proposta é permitir que elas possam se movimentar sentadas e participar de atividades com outras crianças.
O assento baixo também tem uma função importante: manter a criança próxima da altura dos colegas durante as brincadeiras, favorecendo a interação e a exploração do ambiente. Esse conceito faz parte do próprio desenvolvimento do Toddler Mobility Trainer, da MakeGood.
É importante destacar, porém, que o equipamento não deve ser confundido com uma cadeira de rodas médica convencional. A documentação do projeto classifica o modelo como um treinador de mobilidade, destinado ao uso supervisionado, e recomenda que famílias consultem profissionais de fisioterapia ou terapia ocupacional para avaliar sua utilização.
Tecnologia que também vira brinquedo e ferramenta de inclusão
O trabalho de Ed não se limita aos equipamentos de mobilidade.
Ele também utiliza a impressão 3D para produzir brinquedos destinados a crianças em quimioterapia, modelos anatômicos adaptados para pessoas cegas e talas ortopédicas. Os objetos são produzidos com a intenção de serem entregues gratuitamente a quem precisa.
A iniciativa mostra como a fabricação digital pode ser aplicada além do universo tradicional da tecnologia. Em vez de produzir apenas objetos para consumo, uma impressora pode se transformar em uma ferramenta para acessibilidade e inclusão.
O próprio projeto da MakeGood segue essa filosofia. A organização disponibiliza gratuitamente arquivos de dispositivos assistivos para que outras pessoas possam fabricá-los, mantendo uma proposta de código aberto.
Um trabalho que exige tempo, recursos e dedicação
Produzir um equipamento desse tipo está longe de ser simplesmente apertar um botão e esperar a impressão terminar.
As peças precisam ser impressas, retiradas da máquina, preparadas, montadas e verificadas. O processo exige conhecimento técnico, materiais e muitas horas de trabalho.
Em seu estúdio, Ed realiza praticamente todas as etapas da produção. A reportagem publicada pelo Terra em julho deste ano informou que ele já utilizava cerca de 15 impressoras 3D para produzir diferentes itens.
O custo de cada equipamento também envolve filamento, peças, energia elétrica e outros materiais. Para viabilizar a produção, Ed utiliza campanhas de arrecadação destinadas a cada criança atendida.
Segundo ele, uma campanha de aproximadamente R$ 2 mil costuma conseguir arrecadar os recursos necessários rapidamente quando a história da criança é divulgada nas redes sociais.
Um projeto que pretende crescer
Mais do que produzir equipamentos sozinho, Ed sonha em ampliar a iniciativa.
A ideia é formar uma rede de pessoas com impressoras 3D espalhadas pelo Brasil, capazes de produzir os equipamentos mais perto das famílias que precisam deles. Dessa maneira, seria possível reduzir custos e, principalmente, o tempo de espera.
A proposta também combina com a filosofia do projeto original da MakeGood, que aposta em uma rede de voluntários para fabricar dispositivos assistivos e distribuí-los gratuitamente.
Enquanto esse objetivo não se concretiza, Ed continua trabalhando em seu estúdio, transformando filamentos, peças e muitas horas de dedicação em oportunidades de movimento e autonomia.
A história mostra que a tecnologia não precisa estar distante das necessidades humanas. Quando conhecimento e solidariedade caminham juntos, uma simples impressora pode se transformar em uma ferramenta capaz de abrir novas possibilidades para uma criança.


