Pesquisa identifica mecanismo que interfere na maturação das células B e pode ajudar a explicar a agressividade de um dos tipos mais frequentes de linfoma não Hodgkin
O linfoma difuso de grandes células B (LDGCB), um dos tipos mais agressivos e frequentes de linfoma não Hodgkin, pode ter sua capacidade de avanço relacionada a um mecanismo que interfere diretamente no funcionamento das células de defesa do organismo.
Um estudo publicado no Journal of Immunology identificou, em experimentos com células humanas e animais, como o tumor consegue alterar a atividade de uma proteína importante para a maturação das células B. Essas células fazem parte do sistema imunológico e são responsáveis, entre outras funções, pela produção de anticorpos.
Os pesquisadores do Instituto de Pesquisa Josep Carreras, na Espanha, descobriram que o LDGCB reduz a expressão da proteína HDAC7. Com níveis insuficientes dessa proteína, as células B permanecem em um estágio imaturo e passam a se multiplicar de maneira descontrolada.
O mecanismo pode ajudar a explicar por que esse tipo de linfoma apresenta crescimento rápido e comportamento agressivo.
Um “interruptor” que deixa de funcionar
De acordo com os pesquisadores, o câncer não precisa destruir diretamente a proteína HDAC7. Em vez disso, altera a maneira como os genes da célula são ativados, reduzindo a produção da proteína.
A consequência é semelhante ao desligamento de um interruptor que deveria permanecer funcionando durante o processo normal de amadurecimento celular.
Sem a quantidade adequada de HDAC7, as células B deixam de seguir corretamente sua programação de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, podem adquirir características que favorecem sua multiplicação descontrolada.
A descoberta ajuda a compreender melhor como alterações na regulação dos genes podem contribuir para o desenvolvimento e a agressividade do linfoma, mesmo sem necessariamente provocar alterações diretas no DNA.
Pesquisadores conseguiram reverter o mecanismo em animais
Além de identificar o processo, os cientistas testaram experimentalmente uma forma de restaurar a expressão da HDAC7.
Nos modelos animais utilizados na pesquisa, a reativação da proteína permitiu que as células retomassem parte do programa de amadurecimento que havia sido interrompido. O procedimento também esteve associado à redução das células tumorais e a uma melhora na condição dos animais.
Para especialistas, o resultado é importante porque sugere que o mecanismo identificado pode, no futuro, representar um novo caminho para o desenvolvimento de tratamentos.
Isso não significa, porém, que uma nova terapia já esteja disponível. O experimento ainda está em uma etapa inicial e foi realizado em laboratório e em modelos animais.
Do laboratório ao tratamento pode levar anos
Os próprios pesquisadores destacam que ainda existe um longo caminho até saber se a descoberta poderá ser transformada em uma terapia segura e eficaz para pacientes.
Uma das dificuldades é encontrar uma maneira de impedir que o tumor reduza a expressão da HDAC7 em seres humanos sem prejudicar o funcionamento normal de outras células.
Atualmente, o tratamento do LDGCB pode envolver uma combinação de quimioterapia e imunoterapia. Quando a doença apresenta resistência ao tratamento, terapias celulares, como a CAR-T, também podem ser utilizadas em situações específicas.
A CAR-T utiliza células do próprio paciente, que são modificadas geneticamente em laboratório para reconhecer e atacar células cancerígenas.
O que a descoberta representa
O estudo amplia o conhecimento sobre um dos mecanismos utilizados pelo linfoma para escapar do funcionamento normal do sistema imunológico e continuar se multiplicando.
Embora ainda não represente uma nova opção de tratamento para pacientes, a identificação da HDAC7 como peça importante desse processo abre uma possibilidade para futuras pesquisas.
A expectativa é que estudos posteriores possam descobrir maneiras seguras de impedir que o tumor “desligue” esse mecanismo e, assim, ajudar as células B a retomar seu processo normal de maturação.


