Revisão científica identificou melhora em parte dos pacientes quando o suplemento foi utilizado junto ao tratamento convencional, mas especialistas alertam que ainda não há evidências suficientes para recomendação clínica.
Conhecida principalmente por seu uso entre praticantes de atividades físicas e atletas, a creatina passou a despertar o interesse da comunidade científica em uma área bastante diferente: a saúde mental. Uma revisão sistemática publicada recentemente na revista científica Brain Medicine sugere que o suplemento pode contribuir como terapia complementar no tratamento da depressão, desde que associado aos tratamentos tradicionais e sob acompanhamento médico.
O levantamento reuniu dados de 238 participantes distribuídos em seis estudos realizados no Brasil, Estados Unidos, Coreia do Sul, Israel e Índia. A maioria dos voluntários era composta por mulheres, com idade média de 36 anos, diagnosticadas com transtorno depressivo maior ou transtorno bipolar em fase depressiva.
Os pesquisadores analisaram principalmente ensaios clínicos randomizados e controlados — considerados um dos padrões mais confiáveis na pesquisa científica — para comparar os efeitos da creatina com o placebo.
Melhora foi observada em parte dos pacientes
Os resultados mais promissores apareceram entre pessoas com depressão que utilizaram 5 gramas diárias de creatina em conjunto com antidepressivos, especialmente o escitalopram. Em alguns estudos, pacientes que combinaram o suplemento com terapia cognitivo-comportamental (TCC) também apresentaram evolução superior à observada nos grupos que receberam placebo.
Entretanto, os benefícios não foram uniformes. Entre pacientes com transtorno bipolar, por exemplo, os resultados foram inconsistentes. Além disso, adolescentes e pessoas que já apresentavam baixa resposta aos medicamentos tradicionais não demonstraram melhora significativa.
Durante o acompanhamento, dois participantes desenvolveram episódios de mania ou hipomania, fato que reforça a necessidade de monitoramento médico em pesquisas futuras.
Por que a creatina chamou a atenção da psiquiatria?
O interesse dos cientistas está relacionado ao papel da creatina na produção de energia celular. A substância participa da regeneração do ATP (adenosina trifosfato), principal fonte de energia utilizada pelas células do organismo, incluindo as do cérebro.
Pesquisas anteriores já haviam identificado alterações no metabolismo energético cerebral em pessoas com transtornos de humor. A hipótese é que a creatina possa ajudar a melhorar esse funcionamento, além de influenciar sistemas ligados a neurotransmissores importantes, como a dopamina e a serotonina, envolvidos na regulação do humor.
Embora essa teoria ainda esteja sendo investigada, ela ajuda a explicar por que um suplemento tradicionalmente associado ao desempenho muscular passou a ganhar espaço nas pesquisas em psiquiatria.
Especialistas pedem cautela
Apesar dos resultados considerados animadores, os próprios autores da revisão destacam que ainda não existem evidências suficientes para modificar a prática clínica.
Os estudos analisados tiveram duração máxima de oito semanas, período considerado curto para avaliar a eficácia e a segurança do uso prolongado da creatina em pacientes com depressão.
Além disso, os pesquisadores ressaltam que o suplemento não substitui medicamentos, psicoterapia ou qualquer tratamento prescrito por profissionais de saúde.
Os efeitos adversos registrados foram, em sua maioria, leves, como desconfortos gastrointestinais. Mesmo assim, a ocorrência de episódios de mania em alguns participantes indica que novas pesquisas, com um número maior de voluntários e acompanhamento mais prolongado, serão fundamentais para confirmar a segurança e a eficácia da estratégia.
Pesquisa ainda está em fase inicial
Segundo os autores, os resultados representam um sinal promissor para futuras investigações, mas ainda estão longe de estabelecer a creatina como tratamento para a depressão.
Caso estudos futuros confirmem os benefícios observados até agora, o suplemento poderá integrar, no futuro, estratégias complementares de tratamento, sempre associado ao acompanhamento médico e jamais utilizado de forma isolada.
Enquanto isso, especialistas reforçam que pessoas com sintomas de depressão devem buscar avaliação profissional e evitar a automedicação, mesmo quando se trata de suplementos amplamente comercializados.


