Estudos mostram que acompanhamento psicológico pode trazer mais bem-estar, fortalecer relações e ajudar idosos a enfrentar desafios do envelhecimento
Muitas pessoas ainda acreditam que a terapia é um recurso voltado apenas para jovens ou adultos em idade produtiva. No entanto, pesquisas recentes mostram exatamente o contrário: cuidar da saúde mental pode ser benéfico em qualquer fase da vida, inclusive na terceira idade.
A história de Maurizio, de 70 anos, é um exemplo disso. Após conviver por décadas com crises de enxaqueca, ele decidiu iniciar um processo terapêutico para compreender melhor as possíveis origens do problema. Embora não tenha encontrado uma resposta definitiva para as dores, descobriu algo igualmente valioso: um espaço de autoconhecimento e reflexão.
“Passei a entender minha vida com mais clareza”, relata.
Casos como o dele têm se tornado cada vez mais frequentes. Especialistas destacam que a terapia pode ajudar idosos a lidar com mudanças importantes, como aposentadoria, perdas familiares, conflitos de relacionamento, isolamento social e problemas de saúde física.
Saúde mental na terceira idade merece atenção
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 14% das pessoas com mais de 70 anos convivem com algum transtorno mental, principalmente ansiedade e depressão. Além disso, aproximadamente 17% dos suicídios registrados no mundo ocorrem nessa faixa etária.
Apesar desses números, a busca por atendimento psicológico ainda é relativamente baixa entre idosos. Um estudo divulgado em 2024 revelou que apenas cerca de 4% das pessoas com mais de 65 anos receberam acompanhamento psicoterapêutico, percentual inferior ao observado entre adultos mais jovens.
Para especialistas, essa diferença não está relacionada à eficácia do tratamento. Pelo contrário. Pesquisas demonstram que a terapia continua produzindo resultados positivos mesmo após os 70 ou 80 anos de idade.
O preconceito que ainda precisa ser superado
Durante muito tempo, existiu a crença de que pessoas mais velhas teriam dificuldade para mudar comportamentos ou desenvolver novas formas de pensar. Essa ideia foi reforçada por conceitos antigos da psicologia e acabou influenciando profissionais de saúde e a própria sociedade.
Hoje, entretanto, estudos apontam que o cérebro mantém capacidade de adaptação ao longo de toda a vida. O envelhecimento não representa o fim do aprendizado nem das transformações pessoais.
Especialistas alertam que o chamado etarismo — preconceito relacionado à idade — pode impedir que muitos idosos procurem ajuda. Em diversos casos, sintomas de ansiedade, tristeza persistente ou depressão são encarados como algo “normal da idade”, quando na verdade merecem atenção profissional.
Benefícios que vão além da saúde mental
Além de auxiliar no tratamento de transtornos emocionais, a terapia pode proporcionar ganhos importantes na qualidade de vida.
Entre os benefícios mais frequentemente relatados estão:
- Maior autoconhecimento;
- Redução da ansiedade e do estresse;
- Fortalecimento dos relacionamentos familiares;
- Melhor adaptação à aposentadoria;
- Desenvolvimento de novos projetos de vida;
- Aumento da autoestima;
- Ampliação da participação social;
- Sensação de propósito e pertencimento.
Pesquisas também indicam que terapias em grupo podem gerar resultados expressivos, especialmente por promoverem convivência, troca de experiências e combate ao isolamento.
Existem diferentes caminhos terapêuticos
A escolha do tipo de terapia depende das necessidades de cada pessoa. Entre as modalidades mais conhecidas estão:
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
Focada na identificação e modificação de padrões de pensamento e comportamento que causam sofrimento.
Terapia Psicodinâmica ou Psicanálise
Busca compreender como experiências passadas influenciam emoções e comportamentos atuais.
Terapia Familiar
Trabalha questões que envolvem relações familiares e dinâmicas entre diferentes membros da família.
Terapia em Grupo
Permite compartilhar vivências com pessoas que enfrentam situações semelhantes, promovendo acolhimento e apoio mútuo.
Atendimento gratuito também está disponível
No Brasil, pessoas que precisam de apoio psicológico podem procurar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Os serviços estão disponíveis em:
- Centros de Atenção Psicossocial (CAPS);
- Unidades Básicas de Saúde (UBS);
- Unidades de Pronto Atendimento (UPA 24h), em situações de crise;
- Serviços de saúde mental oferecidos por municípios e estados.
Buscar ajuda profissional não é sinal de fraqueza. Pelo contrário: é uma demonstração de cuidado consigo mesmo.
Como mostram inúmeras histórias de quem decidiu começar a terapia após os 60, 70 ou até 80 anos, o processo de autoconhecimento e transformação não tem prazo de validade. Afinal, enquanto houver vida, sempre haverá espaço para aprender, crescer e construir novos significados.


