Pesquisas nacionais buscam reduzir custos e acelerar a produção da imunoterapia personalizada considerada uma das mais promissoras da medicina moderna
A ciência brasileira está avançando em uma das terapias mais inovadoras do mundo no combate ao câncer: a terapia com células CAR-T. Pesquisadores de instituições como o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e universidades brasileiras trabalham para reduzir custos e desenvolver tecnologia nacional capaz de levar esse tratamento ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Considerada uma das maiores revoluções da medicina nas últimas décadas, a terapia CAR-T funciona como uma imunoterapia personalizada, em que células de defesa do próprio paciente são modificadas em laboratório para reconhecer e destruir células cancerígenas.
Nesse processo, os médicos coletam linfócitos T do paciente — células responsáveis pela defesa do organismo — e os reprogramam geneticamente para que passem a identificar o tumor. Depois de modificadas, essas células são reinfundidas no corpo do paciente para atacar o câncer de forma direcionada.
Por agir diretamente no sistema imunológico, a terapia tem apresentado resultados expressivos em casos de leucemia, linfoma e mieloma múltiplo, inclusive em pacientes que não responderam a outros tratamentos.
Tratamento já existe, mas ainda é caro
A terapia CAR-T já é utilizada em países como Estados Unidos, China, Japão e diversas nações da Europa. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou três medicamentos baseados nessa tecnologia:
- Kymriah (tisagenlecleucel) – indicado para leucemia linfoblástica aguda e linfomas
- Yescarta (axicabtagene ciloleucel) – usado em linfomas agressivos
- Carvykti (ciltacabtagene autoleucel) – destinado ao tratamento de mieloma múltiplo
Apesar da aprovação, o tratamento ainda não foi incorporado ao SUS. O principal motivo é o alto custo de produção, já que cada terapia precisa ser preparada individualmente para cada paciente.
Cientistas brasileiros buscam soluções mais acessíveis
Para superar esse desafio, grupos de pesquisa brasileiros estão desenvolvendo novas estratégias que podem reduzir significativamente o custo da terapia.
Uma das linhas de estudo busca substituir o método tradicional de modificação genética — que utiliza vetores virais — por um sistema não viral baseado em DNA. Essa alternativa permitiria produzir células CAR-T em cerca de oito dias, enquanto o processo atual pode levar mais de um mês.
Com isso, além de reduzir custos, seria possível acelerar o início do tratamento para pacientes em estado crítico.
O projeto já passou por etapas pré-clínicas e agora segue para a fase de documentação regulatória que será analisada pela Anvisa. A expectativa é realizar ensaios clínicos em pacientes com leucemia.
Anticorpos de lhamas entram na pesquisa
Outro campo curioso de investigação envolve os anticorpos produzidos por lhamas. Esses animais produzem moléculas menores e mais simples, que podem facilitar o desenvolvimento de novos receptores CAR utilizados na terapia.
Pesquisadores brasileiros já utilizam esses anticorpos para criar versões mais eficientes das proteínas responsáveis por direcionar as células de defesa contra o câncer.
Sim, lhamas — inclusive criadas no interior do Ceará — estão contribuindo para pesquisas que podem revolucionar o tratamento oncológico.
Parcerias internacionais aceleram a inovação
Uma parceria entre o INCA e o Children’s Hospital of Philadelphia, referência mundial em terapia celular, também pretende transferir tecnologia para o Brasil.
O objetivo é permitir que o próprio país produza as células modificadas em seus laboratórios, evitando o modelo atual em que o material precisa ser enviado ao exterior para preparação.
Na primeira fase do projeto, a previsão é tratar até 20 pacientes pediátricos com leucemia linfoblástica aguda ao longo de três anos.
Produção nacional pode começar em breve
Outra colaboração envolve a Fiocruz e a organização internacional Caring Cross, que permitirá a produção de células CAR-T em contêineres laboratoriais instalados próximos aos centros de tratamento.
Esse modelo inovador poderá ser replicado em diferentes regiões do país e facilitar o acesso de pacientes à terapia.
A expectativa dos pesquisadores é que os primeiros pacientes tratados dentro desse novo modelo no Brasil recebam a terapia entre o final de 2026 e o início de 2027.
Se os estudos confirmarem a eficácia e a redução de custos, o país poderá dar um passo decisivo para tornar esse tratamento acessível a um número muito maior de brasileiros.
Uma nova esperança no combate ao câncer
Os avanços nas pesquisas mostram que o Brasil possui capacidade científica para desenvolver tecnologias de ponta na área da medicina de precisão.
Com investimento contínuo e colaboração entre universidades, institutos públicos e centros internacionais, a terapia CAR-T pode se tornar, no futuro próximo, uma opção real de tratamento dentro do SUS, oferecendo novas chances de cura para milhares de pacientes.


