Projeto busca criar índice capaz de traduzir sinais de estresse ambiental emitidos por árvores, abelhas, ostras e morcegos
A ideia de que a natureza envia sinais sobre as mudanças do ambiente não é novidade para muitos povos tradicionais e observadores atentos. No sertão cearense, por exemplo, profetas da chuva utilizam há décadas o comportamento de aves, árvores e outros elementos naturais para prever períodos de seca ou de chuva. Agora, pesquisadores brasileiros querem levar essa interpretação para um novo patamar utilizando tecnologia digital e inteligência artificial.
Um grupo de cientistas está desenvolvendo um sistema capaz de identificar e interpretar sinais biológicos emitidos por diferentes espécies para medir o nível de estresse ambiental em áreas urbanas. O objetivo é criar uma espécie de “tradutor da natureza”, transformando respostas metabólicas de animais e plantas em dados que possam auxiliar no planejamento das cidades e na preservação ambiental.
O projeto, chamado Apeiron — termo de origem grega que significa “ilimitado” — será conduzido em Recife (PE) pelo Centro de Estudos e Sistemas Avançados de Recife (CESAR), em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
A pesquisa pretende monitorar organismos que convivem diariamente com a população urbana, como morcegos, abelhas, ostras e aroeiras. Sensores e equipamentos especiais irão registrar sons, padrões de voo, níveis de transpiração vegetal e até a frequência de abertura das conchas das ostras.
Esses dados serão comparados com informações coletadas nas mesmas espécies que vivem em áreas de preservação ambiental, onde a influência humana é menor. A diferença entre os comportamentos poderá revelar o quanto esses organismos estão sendo impactados pela poluição, pelo calor excessivo, pelo ruído urbano e por outras pressões ambientais.
Um “termômetro” da saúde ambiental
A proposta dos pesquisadores é criar o chamado Índice de Resiliência Metabólica (IRM), uma métrica que funcionaria de forma semelhante ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), mas voltada para a saúde ambiental dos ecossistemas urbanos.
O índice reunirá diferentes indicadores biológicos para medir o esforço que plantas e animais precisam fazer para sobreviver em determinado ambiente. Quanto maior o estresse registrado, menor tende a ser a qualidade ambiental daquele local.
Segundo os pesquisadores, uma ostra que reduz sua alimentação para evitar a absorção de substâncias tóxicas ou uma árvore que altera seu padrão de transpiração em resposta ao calor excessivo estão emitindo sinais reais sobre as condições do ambiente onde vivem.
A expectativa é que o IRM seja padronizado em uma escala de 0 a 100, permitindo comparar diferentes regiões da cidade e identificar áreas que necessitam de intervenções mais urgentes.
Inteligência artificial como tradutora da vida
A inteligência artificial terá papel fundamental no projeto. Os algoritmos serão responsáveis por analisar grandes volumes de informações coletadas em tempo real, identificando padrões invisíveis à observação humana.
Ao cruzar os dados de diversas espécies, o sistema poderá detectar alterações ambientais antes mesmo que elas sejam percebidas pela população. Dessa forma, o comportamento dos seres vivos poderá funcionar como um alerta precoce para problemas relacionados ao clima urbano, poluição ou degradação ambiental.
Cidades mais inteligentes e sustentáveis
Os pesquisadores acreditam que a iniciativa pode contribuir para uma nova forma de planejamento urbano, considerando a cidade como um organismo vivo e integrado.
A partir dos dados gerados pelo índice, gestores públicos poderão compreender melhor como diferentes bairros respondem ao calor, à ocupação urbana e às mudanças ambientais, criando políticas mais eficientes para melhorar a qualidade de vida da população.
A proposta também reforça um conhecimento antigo compartilhado por agricultores, comunidades tradicionais e observadores da natureza: os seres vivos estão constantemente enviando mensagens sobre o ambiente ao seu redor. A diferença é que, agora, a tecnologia pode ajudar a traduzir essas mensagens em informações concretas para a ciência e para a gestão das cidades.


