Protótipo chamado SpudCell consegue se alimentar, crescer e se dividir, aproximando a ciência de organismos projetados para combater doenças e desafios ambientais
A biologia sintética deu um passo histórico rumo à compreensão da vida. Pesquisadores anunciaram a criação de uma célula sintética construída completamente a partir de componentes químicos não vivos, capaz de realizar funções essenciais como se alimentar, crescer e se dividir. Embora ainda seja um protótipo extremamente simples, a conquista pode representar o início de uma nova geração de organismos desenvolvidos sob medida para aplicações médicas, ambientais e industriais.
O projeto foi liderado pela bióloga sintética Kate Adamala, da Universidade de Minnesota, que batizou a criação de SpudCell. Diferentemente das pesquisas tradicionais, que modificam células já existentes, a equipe montou a estrutura célula por célula, molécula por molécula, criando um organismo que não pertence aos reinos vegetal ou animal e que apresenta características semelhantes às de uma bactéria muito simples.
Um “kit básico” da vida
Segundo os pesquisadores, a SpudCell possui entre 150 e 200 moléculas e um genoma com aproximadamente 90 mil pares de bases — uma fração do tamanho do DNA de bactérias comuns, como a Escherichia coli, que possui cerca de 4,6 milhões de pares de bases.
Apesar da simplicidade, a célula consegue realizar três processos considerados fundamentais para qualquer organismo:
- absorver nutrientes;
- crescer;
- produzir células-filhas por divisão.
No entanto, sua autonomia ainda é bastante limitada. Cada nova geração precisa receber nutrientes específicos fornecidos pelos pesquisadores, incluindo ribossomos — estruturas indispensáveis para fabricar proteínas — que a SpudCell ainda não consegue produzir sozinha.
Enquanto uma bactéria comum pode se dividir em cerca de 30 minutos, a SpudCell leva aproximadamente 12 horas para completar esse processo.
Mais do que copiar a natureza
Os cientistas destacam que o objetivo não é simplesmente reproduzir uma célula natural.
Em vários aspectos, a SpudCell realiza tarefas semelhantes às da vida utilizando mecanismos completamente diferentes daqueles encontrados nos organismos existentes. Para especialistas da área, isso demonstra que talvez existam diversas maneiras de construir sistemas vivos ou semelhantes à vida.
Essa flexibilidade poderá permitir que futuras células sintéticas sejam projetadas especificamente para executar funções determinadas, sem carregar milhões de anos de adaptações evolutivas presentes nos seres vivos atuais.
Possíveis aplicações
Embora ainda esteja muito distante de aplicações práticas, a tecnologia desperta grande interesse por seu potencial futuro.
Entre as possibilidades estudadas estão:
- desenvolvimento de novas terapias contra o câncer;
- produção de medicamentos de forma mais eficiente;
- fabricação sustentável de produtos químicos;
- captura de dióxido de carbono da atmosfera;
- degradação de poluentes ambientais;
- produção de materiais biológicos personalizados.
Como toda a estrutura da célula é conhecida pelos pesquisadores, qualquer componente poderá ser modificado ou programado de maneira muito mais precisa do que nas células naturais.
Ainda não é considerada vida
Apesar do avanço, os próprios pesquisadores evitam afirmar que criaram vida em laboratório.
A SpudCell depende integralmente das condições fornecidas pelos cientistas para sobreviver e não consegue existir de forma independente no ambiente.
Especialistas explicam que o projeto representa um importante passo para entender quais são os requisitos mínimos necessários para que a química passe a apresentar características típicas dos organismos vivos, mas ainda não responde completamente à pergunta sobre o que define a própria vida.
Questões de segurança
O desenvolvimento também levanta debates sobre biossegurança e ética.
Os responsáveis afirmam que a SpudCell, em seu estágio atual, não representa risco ambiental nem poderia ser utilizada para produzir agentes patogênicos, justamente porque depende de diversos componentes externos para funcionar.
Mesmo assim, pesquisadores defendem que futuras versões da tecnologia sejam acompanhadas por regras internacionais de segurança, transparência e mecanismos genéticos que impeçam qualquer sobrevivência fora de ambientes controlados.
A equipe também pretende disponibilizar a plataforma de forma aberta para pesquisadores acadêmicos, permitindo que diferentes grupos colaborem no aperfeiçoamento da tecnologia, enquanto aplicações comerciais poderão ser licenciadas futuramente.
Um novo capítulo da biologia
Embora ainda esteja em estágio inicial e aguarde publicação definitiva em revista científica com revisão por pares, o trabalho já é considerado por diversos especialistas um dos avanços mais relevantes da biologia sintética dos últimos anos.
A expectativa é que pesquisas desse tipo ajudem a responder uma das maiores perguntas da ciência: como a vida surgiu a partir de moléculas simples e até onde será possível projetar organismos capazes de resolver desafios da humanidade.


