A ausência de um animal que fazia parte da rotina também pode ser sentida pelos outros pets da família, que percebem mudanças no ambiente e podem reagir de diferentes maneiras
Quando um animal de estimação morre, a casa muda. Falta um som conhecido, um movimento pela sala, uma companhia durante as refeições ou aquele encontro habitual em determinado horário do dia. Para quem fica, a saudade pode ser difícil de explicar.
Mas existe um outro luto, mais silencioso, que muitas vezes passa despercebido: o dos animais que continuam na casa.
Cães e gatos que conviviam diariamente com um companheiro podem perceber sua ausência e apresentar mudanças de comportamento. Eles não necessariamente compreendem a morte com os mesmos conceitos humanos, mas são capazes de perceber que algo mudou na rotina, no ambiente e na dinâmica social da família.
Quando a rotina muda
Depois da perda de um companheiro, alguns animais podem ficar mais quietos, dormir mais, perder temporariamente o interesse por brincadeiras ou procurar pelo outro animal em lugares onde costumavam encontrá-lo.
Também podem ocorrer alterações no apetite, maior necessidade de proximidade com os tutores ou mudanças na forma de interagir com outros animais da casa.
Esses sinais não significam, necessariamente, que todos os pets estejam vivendo um “luto” da mesma maneira. Cada animal reage de acordo com sua personalidade, seu vínculo com o companheiro e as mudanças que acontecem ao seu redor.
Por isso, observar o comportamento é mais importante do que tentar encaixar a reação em uma definição humana de tristeza.
O vínculo também existe entre eles
A convivência cria relações. Animais que passam anos juntos compartilham espaços, cheiros, horários, brincadeiras e formas de comunicação.
É justamente essa mudança repentina na rotina que pode ser significativa para quem permanece.
A cientista Jacqueline Boyd, especialista em comportamento e bem-estar animal, relatou uma experiência pessoal após a morte de sua cocker spaniel Bobbi, que enfrentava um câncer agressivo.
Depois da eutanásia, Boyd levou o corpo da cadela para casa e permitiu que os outros cães se aproximassem. Enquanto alguns apenas cheiraram o corpo e se afastaram, Bertie, sobrinho de Bobbi, permaneceu ao lado dela por cerca de meia hora.
Para a cientista, aquele momento mostrou a importância de permitir que o animal tivesse tempo para reagir àquela mudança, sem interferência.
A experiência, porém, não deve ser interpretada como prova de que os cães compreendem a morte exatamente como os seres humanos. Ela revela, sobretudo, como os animais podem responder à ausência e às alterações provocadas pela perda de um companheiro.
Como ajudar quem ficou
Nesse período, manter alguma estabilidade pode ajudar.
Horários de alimentação, passeios, brincadeiras e descanso devem ser preservados sempre que possível. O tutor também pode oferecer mais atenção e atividades que o animal já aprecia, sem forçar interações.
Também é importante observar a alimentação, a disposição e outros comportamentos.
Se a mudança for intensa, persistente ou vier acompanhada de sinais físicos, como recusa prolongada de alimento, vômitos, diarreia ou apatia acentuada, é importante procurar orientação veterinária. Nem toda alteração após uma perda é necessariamente emocional, e problemas de saúde também podem surgir ou passar despercebidos nesse período.
Cada um encontra seu próprio jeito
O luto dos animais pode ser silencioso porque não existe uma maneira única de demonstrá-lo. Alguns mudam temporariamente seus hábitos. Outros parecem seguir a rotina normalmente.
E isso também faz parte.
A perda de um companheiro altera a vida de toda a casa — inclusive daqueles que não conseguem colocar a saudade em palavras.
Talvez o mais importante seja compreender que, quando um animal parte, os que ficam também precisam de tempo para se adaptar à nova realidade.
Entre cheiros que permanecem, lugares que ficam vazios e uma rotina que aos poucos se reorganiza, cada pet encontra sua própria maneira de seguir em frente.


