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IA pode acelerar a ciência como nunca antes, afirma Nobel de Economia

Joel Mokyr, laureado com o Nobel de Economia de 2025, vê na inteligência artificial uma poderosa ferramenta para pesquisas, inovação e avanços em áreas como fusão nuclear, longevidade e tratamentos contra o câncer, mas alerta para os impactos da tecnologia no mercado de trabalho.

A inteligência artificial pode inaugurar uma nova fase de avanço científico e tecnológico, acelerando descobertas que hoje exigem anos de pesquisa. Essa é uma das principais razões para o otimismo do economista e historiador Joel Mokyr, professor da Northwestern University e vencedor do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2025.

Mokyr participou do primeiro dia do Febraban Tech 2026, realizado entre 24 e 26 de agosto, no Distrito Anhembi, em São Paulo. O evento reúne especialistas e lideranças para discutir o futuro da tecnologia, da inteligência artificial e da economia digital.

O Nobel de 2025 foi concedido a Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt por trabalhos que explicam como a inovação impulsiona o crescimento econômico. No caso de Mokyr, a premiação reconheceu sua contribuição para entender as condições necessárias para que o progresso tecnológico gere crescimento sustentado.

Durante sua apresentação, Mokyr destacou a relação histórica entre ciência e tecnologia. Para ele, descobertas científicas criam novas tecnologias, enquanto ferramentas tecnológicas mais avançadas permitem que os pesquisadores façam novas descobertas — formando um ciclo de retroalimentação capaz de acelerar continuamente a inovação.

IA como uma nova ferramenta para a ciência

Na avaliação do economista, a inteligência artificial pode representar um salto importante nesse processo. Ela já consegue auxiliar pesquisadores na análise de grandes quantidades de dados, na pesquisa de proteínas e no desenvolvimento de novos materiais.

Mokyr considera especialmente relevante o fato de a IA funcionar como uma espécie de assistente de pesquisa disponível continuamente. Ao contrário de um pesquisador humano, a tecnologia não se cansa e consegue processar enormes volumes de informações em pouco tempo.

Para o economista, essa capacidade pode fazer com que a ciência avance em uma velocidade inédita.

Entre as áreas que podem ser beneficiadas estão a fusão nuclear, que depende de avanços científicos e de novos materiais; as pesquisas relacionadas ao envelhecimento celular; e as tecnologias de RNA mensageiro, que podem ampliar as possibilidades de tratamento e prevenção de diversas doenças.

O entusiasmo de Mokyr está relacionado à própria lógica de sua pesquisa sobre inovação. Segundo a abordagem reconhecida pelo Nobel, o desenvolvimento tecnológico se fortalece quando novos conhecimentos científicos podem ser transformados em aplicações práticas e quando a sociedade permanece aberta à inovação.

O futuro pode ser melhor do que o presente

Apesar das discussões sobre uma possível desaceleração das grandes descobertas científicas, Mokyr rejeita uma visão pessimista de que os principais avanços da humanidade já teriam ficado para trás.

Para ele, a história mostra que novas ferramentas frequentemente abrem caminhos que antes sequer eram imaginados.

Telescópios espaciais, computadores muito mais potentes e instrumentos científicos cada vez mais sofisticados ampliaram enormemente a capacidade humana de compreender o universo. A inteligência artificial, em sua avaliação, pode ser o próximo grande instrumento dessa transformação.

A perspectiva também está alinhada ao trabalho pelo qual o economista recebeu o Nobel: a inovação não deve ser vista apenas como a criação de produtos, mas como parte de um processo contínuo em que conhecimento, ciência e tecnologia se reforçam mutuamente.

O impacto no mercado de trabalho preocupa

O otimismo de Mokyr, porém, não significa que ele ignore os riscos da inteligência artificial.

Uma de suas principais preocupações está no ritmo de transformação do mercado de trabalho. A tecnologia pode avançar mais rapidamente do que a capacidade de trabalhadores, empresas e governos de se adaptarem.

Profissões podem desaparecer ou ser profundamente modificadas, obrigando milhões de pessoas a aprender novas habilidades. O processo tende a ser especialmente difícil para profissionais que passaram décadas exercendo a mesma atividade.

O economista considera que políticas públicas poderão ser necessárias para reduzir os impactos sociais dessa transição, inclusive por meio de mecanismos de proteção social. Ele também chama atenção para o custo psicológico e emocional provocado pela necessidade de recomeçar profissionalmente.

Essa tensão entre inovação e adaptação faz parte do próprio conceito de destruição criativa, associado aos também laureados Philippe Aghion e Peter Howitt. Novas tecnologias podem criar oportunidades e crescimento, mas também tornar empresas, produtos e atividades antigas obsoletos.

Evitar a concentração de poder

Outro ponto levantado por Mokyr é a concentração do desenvolvimento da IA nas mãos de poucas empresas.

Para o economista, a competição pode funcionar como um mecanismo importante de equilíbrio. Se diferentes empresas e países desenvolverem sistemas de inteligência artificial, os consumidores terão alternativas e poderão escolher as tecnologias que melhor atendam às suas necessidades.

O maior risco, segundo ele, seria a monopolização do setor por uma única companhia. Nesse cenário, políticas antitruste poderiam ser necessárias para impedir uma concentração excessiva de poder tecnológico.

Mokyr também defende que não é necessariamente importante saber qual país será o líder mundial em inteligência artificial. Se uma inovação capaz de combater as mudanças climáticas ou solucionar outro grande problema surgir em qualquer lugar, o conhecimento poderá eventualmente se espalhar e beneficiar outras sociedades.

Sem uma visão apocalíptica

Apesar dos riscos, o Nobel de Economia rejeita previsões de que a inteligência artificial inevitavelmente levará a humanidade a uma espécie de distopia tecnológica.

Para ele, a história demonstra que grandes inovações já provocaram transformações profundas. A imprensa, por exemplo, alterou radicalmente a maneira como o conhecimento era produzido e distribuído, mas acabou sendo incorporada à vida cotidiana e trouxe benefícios duradouros.

Mokyr vê possíveis paralelos entre a popularização da imprensa e a expansão da inteligência artificial: ambas ampliam o acesso ao conhecimento e podem modificar profundamente a sociedade.

A diferença, agora, está na velocidade. A IA consegue acessar, organizar e processar informações em uma escala que nenhuma tecnologia anterior alcançou.

Um futuro de grandes descobertas

A mensagem central de Mokyr é de confiança na capacidade humana de transformar novas ferramentas em conhecimento e progresso.

Os desafios são reais: trabalhadores precisarão se adaptar, governos terão de atualizar instituições, empresas deverão lidar com novas regras e a sociedade precisará discutir quem controla as tecnologias mais poderosas.

Ainda assim, para o economista, os potenciais benefícios superam os riscos quando a inovação é acompanhada por competição, instituições capazes de se adaptar e uma sociedade aberta ao conhecimento.

A inteligência artificial, nesse cenário, não seria apenas uma tecnologia para automatizar tarefas. Poderá se tornar uma das principais ferramentas para acelerar a própria produção de conhecimento científico — e abrir caminhos para descobertas que hoje ainda parecem distantes.

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