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Harvard desenvolve app com inteligência artificial para ajudar pessoas com deficiência visual a evitar obstáculos

Ferramenta Mobilio usa câmera, sensores do celular e sinais sonoros personalizados para orientar deslocamentos e identificar caminhos mais seguros

Pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, desenvolveram o Mobilio, um aplicativo para smartphones criado para auxiliar pessoas cegas ou com baixa visão durante seus deslocamentos. A ferramenta combina inteligência artificial, sensores do aparelho e sinais sonoros personalizados para oferecer orientação contínua, indicar caminhos e ajudar a evitar obstáculos.

O projeto foi desenvolvido por pesquisadores da Harvard John A. Paulson School of Engineering and Applied Sciences e teve como primeiro autor o doutorando Raymond Liu, sob orientação do professor Patrick Slade. O estudo foi publicado na revista científica Nature Biomedical Engineering em 24 de agosto de 2026.

A proposta não é simplesmente substituir tecnologias já utilizadas por pessoas com deficiência visual, como bengalas e cães-guia, mas criar uma alternativa complementar que possa reunir diferentes funções em um dispositivo que já faz parte da rotina de grande parte da população: o celular.

Tecnologia desenvolvida a partir das necessidades dos usuários

Antes de desenvolver o sistema, a equipe ouviu mais de 100 pessoas cegas ou com baixa visão para compreender quais recursos seriam mais importantes em uma ferramenta de navegação. Entre as principais necessidades identificadas estavam orientações confiáveis de trajeto, acompanhamento contínuo durante a caminhada e identificação e desvio de obstáculos.

Em vez de depender apenas de instruções de voz, o aplicativo utiliza sinais sonoros direcionais para indicar ao usuário quando deve ajustar sua trajetória para a esquerda ou para a direita. — Foto: Nature Biomedical Engineering

O Mobilio utiliza recursos já presentes em smartphones, como câmera, GPS e sensores capazes de medir movimento e orientação. Em aparelhos compatíveis, também pode utilizar o sensor LiDAR.

Um dos principais diferenciais está no sistema de visão computacional desenvolvido especificamente para analisar o ambiente a partir da perspectiva de quem está caminhando. A tecnologia identifica superfícies como calçadas, faixas de pedestres, ruas e outros espaços que podem fazer parte do percurso.

Essa adaptação é importante porque muitos bancos de imagens utilizados para treinar sistemas de reconhecimento de cenas urbanas foram produzidos a partir de veículos. Isso significa que determinadas características relevantes para quem caminha podem não ser identificadas com a mesma precisão.

Para enfrentar esse problema, os pesquisadores treinaram um modelo de segmentação semântica com imagens captadas da perspectiva de pedestres, permitindo ao sistema reconhecer elementos importantes para a locomoção a pé.

Em vez de apenas falar, aplicativo utiliza sons direcionais

Outro aspecto do Mobilio é a maneira como as orientações são transmitidas ao usuário.

Em vez de depender exclusivamente de comandos de voz, o aplicativo utiliza sinais sonoros, como bipes, que indicam direções. O som pode sugerir, por exemplo, que a pessoa ajuste sua trajetória para a esquerda ou para a direita.

O sistema também procura adaptar os sinais à resposta de cada usuário. Conforme a pessoa caminha, o aplicativo observa como ela acompanha as orientações e ajusta características dos sons para encontrar uma forma mais eficiente de conduzi-la.

Segundo Harvard, essa personalização em tempo real foi pensada para tornar a interação mais natural e adequada às características individuais de cada usuário.

Testes mostraram redução de obstáculos

Para avaliar o funcionamento da tecnologia, os pesquisadores realizaram testes com 14 voluntários com deficiência visual. Os participantes fizeram percursos em ambientes externos e internos, comparando duas situações: navegação com Google Maps e bengala e navegação com o Mobilio e bengala.

Nos trajetos externos, os participantes que utilizaram o Mobilio concluíram o percurso aproximadamente 13% mais rápido.

Já no ambiente interno, a utilização do aplicativo reduziu em cerca de 41% os contatos com obstáculos.

Outro resultado considerado relevante pelos pesquisadores foi a capacidade de conduzir os participantes até o destino. Nesse aspecto, o desempenho do Mobilio foi comparável ao de um guia humano durante os testes realizados.

Tecnologia ainda está em fase de desenvolvimento

Apesar dos resultados iniciais, o Mobilio ainda não deve ser encarado como uma solução definitiva ou como substituto imediato de recursos tradicionais de mobilidade.

Os próprios pesquisadores destacam que pessoas cegas ou com baixa visão possuem experiências e necessidades bastante diferentes, e que os testes realizados até agora representam uma etapa inicial de validação.

A próxima fase do projeto prevê ampliar os experimentos em diferentes ambientes reais na região de Boston, nos Estados Unidos. A equipe pretende avaliar como o sistema se comporta diante de cenários mais variados e como a tecnologia pode se integrar à rotina dos usuários.

A pesquisa também busca encontrar um equilíbrio entre tecnologia e acessibilidade. A escolha pelo smartphone parte justamente da ideia de utilizar um equipamento que muitas pessoas já possuem, evitando depender exclusivamente de dispositivos especializados, que podem ser caros ou menos acessíveis.

Se os próximos testes confirmarem os resultados iniciais, o Mobilio poderá representar mais um passo no desenvolvimento de tecnologias assistivas capazes de ampliar a autonomia e a segurança de pessoas com deficiência visual.

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