Isolamento, irritabilidade, perda de interesse e dificuldades de memória podem aparecer tanto na depressão quanto em quadros de demência. Reconhecer a evolução dos sinais é importante para buscar avaliação e diagnóstico adequado
Mudanças de comportamento, afastamento da vida social, perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer e falhas de memória podem ser atribuídas ao envelhecimento. Mas esses sinais não devem ser considerados automaticamente naturais da idade.
Em pessoas mais velhas, sintomas de depressão e alterações cognitivas relacionadas às demências, incluindo a doença de Alzheimer, podem se sobrepor e dificultar a identificação do que está acontecendo. A depressão, por exemplo, nem sempre aparece como tristeza evidente. Irritabilidade, cansaço, alterações do sono, perda de interesse, dificuldade de concentração e problemas de memória também podem fazer parte do quadro.
No Brasil, um estudo publicado em 2024 com 22.728 participantes da Pesquisa Nacional de Saúde estimou em 11,8% a prevalência de depressão autorreferida entre pessoas idosas. O levantamento também encontrou maior frequência do problema entre mulheres.
Quando a depressão se parece com demência
A chamada depressão na velhice pode passar despercebida justamente porque seus sintomas nem sempre correspondem à imagem tradicional da doença.
A pessoa pode deixar de participar de atividades que antes faziam parte da rotina, reduzir o contato com familiares e amigos, apresentar irritabilidade, ansiedade, falta de energia ou alterações no apetite e no sono. Também podem surgir dificuldades de concentração, tomada de decisões e memória.
O isolamento social merece atenção especial. A Organização Mundial da Saúde aponta a solidão e o isolamento como fatores associados ao risco de problemas de saúde mental na velhice. Por isso, mudanças persistentes no comportamento não devem ser simplesmente atribuídas à idade.
Outro ponto importante é a duração. Sintomas depressivos que permanecem por pelo menos duas semanas e começam a interferir na rotina justificam uma avaliação profissional.
E quando pode ser Alzheimer?
A doença de Alzheimer é uma das principais causas de demência. A demência, por sua vez, não é uma consequência normal do envelhecimento: trata-se de um conjunto de condições que comprometem memória, outras funções cognitivas e comportamento a ponto de interferir nas atividades do dia a dia.
No Alzheimer, a alteração de memória pode vir acompanhada de outros sinais, como dificuldade para encontrar palavras, resolver problemas, tomar decisões, compreender determinadas situações ou executar tarefas que antes eram familiares.
É justamente a interferência progressiva na autonomia que merece atenção. Esquecer ocasionalmente onde colocou um objeto ou demorar para lembrar uma palavra pode acontecer com o envelhecimento. Já apresentar dificuldades cada vez maiores para administrar compromissos, preparar uma refeição conhecida, lidar com dinheiro, se comunicar ou realizar atividades habituais exige investigação.
Há pistas que ajudam a diferenciar?
Não existe uma característica isolada capaz de determinar, por si só, se uma pessoa tem depressão ou Alzheimer. O diagnóstico depende da história clínica, da evolução dos sintomas, da avaliação cognitiva e da investigação de outras possíveis causas.
De maneira geral, na depressão, as queixas de memória e concentração podem estar associadas a alterações importantes de humor, motivação, sono e interesse. Já nas demências, as dificuldades cognitivas tendem a apresentar evolução progressiva e podem comprometer gradualmente a independência da pessoa. Entretanto, os dois quadros podem coexistir, o que torna a avaliação ainda mais importante.
A própria Organização Mundial da Saúde destaca que depressão e demência compartilham sintomas e que uma avaliação mais detalhada deve ser realizada para excluir outras causas comuns de alterações cognitivas.
Nem todo esquecimento significa Alzheimer
Existem outras condições capazes de provocar alterações de memória, concentração e comportamento. Entre elas estão deficiência de vitamina B12, alterações da tireoide e efeitos de determinados medicamentos.
Por isso, antes de concluir que uma pessoa tem Alzheimer, é necessário investigar o conjunto de sintomas e possíveis causas reversíveis ou tratáveis. A avaliação médica pode envolver histórico clínico, exames laboratoriais, testes cognitivos e, quando indicado, exames de imagem.
Diagnóstico precoce ainda é um desafio no Brasil
O diagnóstico tardio continua sendo um dos principais obstáculos para o cuidado das pessoas com demência no país. Segundo o Ministério da Saúde, estimativas apontam que cerca de 80% das pessoas com demência no Brasil não estejam diagnosticadas. Em 2024, a pasta lançou um roteiro para ajudar profissionais da atenção primária a reconhecer sinais da doença e encaminhar os casos para investigação.
O Relatório Nacional sobre a Demência também aponta taxas elevadas de subdiagnóstico entre pessoas com 60 anos ou mais, especialmente nas faixas etárias mais jovens da população idosa.
Por isso, familiares e amigos têm um papel importante. Mudanças persistentes de comportamento, perda de autonomia, dificuldades para realizar tarefas conhecidas ou alterações de memória que começam a prejudicar a rotina devem ser observadas e comunicadas a um profissional de saúde.
Mais do que tentar descobrir sozinho se determinado sintoma é depressão ou Alzheimer, o mais importante é não ignorá-lo. Quanto antes a causa for investigada, maiores são as possibilidades de oferecer o cuidado adequado e melhorar a qualidade de vida da pessoa e de quem está ao seu redor.


