Pesquisa finlandesa encontrou associação entre maior tempo de tela durante a infância e melhor desempenho cognitivo na adolescência, mas não comprova que os dispositivos sejam responsáveis pela melhora
O tempo que crianças e adolescentes passam diante de celulares, tablets, computadores e televisões costuma ser associado a preocupações sobre desenvolvimento, sedentarismo e aprendizagem. Um estudo finlandês de acompanhamento por oito anos, porém, encontrou um resultado que chama atenção: os participantes que relataram maior tempo de tela ao longo da infância e adolescência apresentaram, na adolescência, melhor desempenho em algumas medidas cognitivas.
O trabalho, publicado em 2026 na revista Pediatric Exercise Science, faz parte do estudo PANIC, uma pesquisa finlandesa que acompanha fatores relacionados à atividade física, comportamento sedentário e saúde infantil. A análise envolveu 260 adolescentes, acompanhados desde a infância até os 15 a 17 anos.
O resultado, no entanto, precisa ser interpretado com cautela. Os pesquisadores identificaram uma associação, e não uma relação de causa e efeito. Ou seja, os dados não permitem afirmar que passar mais tempo diante de telas tenha feito as crianças desenvolverem uma cognição melhor.
O que o estudo encontrou
Os pesquisadores analisaram diferentes comportamentos ao longo de oito anos, incluindo atividade física, tempo sedentário e exposição a telas. Na adolescência, os participantes realizaram testes da bateria CogState, utilizada para avaliar diferentes aspectos do funcionamento cognitivo.
Entre os 260 adolescentes analisados, 136 eram meninos e 124 eram meninas. A idade média no acompanhamento de oito anos era de aproximadamente 15,8 anos. O tempo de tela foi avaliado por questionários realizados em diferentes momentos do estudo, enquanto parte das informações sobre atividade física e comportamento sedentário também foi obtida por meio de um dispositivo que combinava dados de movimento e frequência cardíaca.
A análise mostrou que um maior tempo de tela autorrelatado ao longo do período de acompanhamento esteve associado a menor tempo de reação em tarefas de memória de trabalho e a melhor desempenho cognitivo geral na adolescência. Essas associações permaneceram estatisticamente significativas após algumas das análises adicionais realizadas pelos pesquisadores.
Isso não significa, porém, que o celular, o videogame ou a televisão tenham um efeito diretamente positivo sobre o cérebro.
Tempo de tela não significa uma única atividade
Uma das questões mais importantes levantadas pelo estudo é que a expressão “tempo de tela” reúne atividades muito diferentes.
Uma criança pode utilizar um computador para pesquisar um assunto, aprender um idioma, programar, produzir um vídeo ou resolver problemas em um jogo. Também pode passar o mesmo período simplesmente assistindo a conteúdos de maneira passiva.
Essas experiências não exigem necessariamente o mesmo nível de atenção, memória, raciocínio e participação mental.
Por isso, os pesquisadores destacam que interpretar o tempo de tela apenas pela quantidade de horas pode ser insuficiente. O conteúdo e a forma como os dispositivos são utilizados podem ser importantes para compreender a relação observada.
Ainda assim, o estudo não foi desenhado para provar que determinado tipo de conteúdo digital melhora a cognição. A natureza específica das atividades realizadas nas telas não permite, por si só, concluir que jogos educativos, programação, vídeos ou outras tarefas sejam responsáveis pelo resultado.
E a atividade física?
A pesquisa também analisou a relação entre atividade física e cognição, mas os resultados foram menos uniformes.
Entre as meninas, uma maior quantidade de atividade física de baixa intensidade relatada ao longo do acompanhamento esteve associada a melhor desempenho em uma medida de memória de trabalho. Entre os meninos, a participação mais frequente em atividades físicas supervisionadas esteve relacionada a melhor memória de trabalho.
Por outro lado, níveis mais baixos de atividade física não supervisionada relatada pelos próprios participantes apareceram associados a determinados indicadores de processamento cognitivo. Quando atividade física e comportamento sedentário foram avaliados por meio do dispositivo de movimento e frequência cardíaca, entretanto, não foram encontradas associações significativas com o processamento cognitivo.
Essa diferença mostra uma das limitações importantes da pesquisa: sensores conseguem registrar movimento e características fisiológicas, mas não identificam exatamente o que uma criança está fazendo enquanto permanece sentada.
Uma pessoa pode estar estudando, lendo, programando, jogando um videogame que exige raciocínio ou simplesmente assistindo a vídeos. Do ponto de vista de um sensor, situações tão diferentes podem parecer semelhantes.
Por que o estudo não permite liberar o uso das telas
O principal cuidado ao interpretar a pesquisa é não transformar uma associação em uma recomendação.
Os próprios dados não demonstram que aumentar o número de horas diante das telas fará uma criança ou adolescente desenvolver melhores habilidades cognitivas. É possível que outros fatores estejam relacionados simultaneamente ao maior uso de tecnologia e ao desempenho nos testes.
Por exemplo, características individuais, acesso a recursos educacionais, ambiente familiar, hábitos de aprendizagem e o tipo de atividade realizada podem influenciar os resultados.
Além disso, parte das informações sobre tempo de tela foi obtida por questionários, o que significa que os pesquisadores dependeram dos relatos dos participantes. O estudo também analisou um grupo relativamente pequeno de adolescentes, o que reforça a necessidade de novas pesquisas para confirmar e compreender melhor os resultados.
O que os pais podem tirar da pesquisa
A principal mensagem do estudo não é que “quanto mais tela, melhor”. Tampouco significa que a atividade física deva ser substituída por celulares, computadores ou videogames.
O resultado sugere que o conceito de tempo de tela pode ser mais complexo do que simplesmente contar horas. A finalidade do uso, o conteúdo consumido e o nível de participação da criança podem ser aspectos importantes nessa discussão.
Pesquisas mais amplas e estudos de intervenção ainda são necessários para descobrir se determinados tipos de atividades digitais realmente produzem benefícios cognitivos e em quais condições isso poderia acontecer.
Enquanto isso, a pesquisa reforça uma ideia de equilíbrio: crianças e adolescentes precisam continuar tendo oportunidades para se movimentar, dormir adequadamente, conviver socialmente e aprender, ao mesmo tempo em que podem utilizar a tecnologia de maneira ativa e produtiva.
Em resumo
O estudo finlandês encontrou uma associação entre maior tempo de tela acumulado desde a infância e melhor desempenho cognitivo na adolescência. Mas isso não significa que as telas tenham causado a melhora.
A conclusão mais segura é que nem todo tempo de tela representa a mesma experiência. Em vez de analisar apenas o número de horas, é necessário considerar o contexto e a finalidade desse uso — sem deixar de lado outros elementos importantes para o desenvolvimento infantil.
Fonte: Pediatric Exercise Science / estudo PANIC.


