Registro da Anvisa abre caminho para uma versão mais barata do medicamento; produto ainda não tem indicação aprovada para tratamento da obesidade
A chegada do primeiro medicamento genérico à base de semaglutida sintética ao mercado brasileiro pode representar uma mudança importante para pessoas com diabetes tipo 2. O registro foi concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) à farmacêutica EMS, que terá como referência o Ozivy, primeira caneta de semaglutida de fabricação nacional.
Na mesma decisão, a Anvisa também aprovou um medicamento similar produzido pela Germed, que será comercializado com o nome Semaclique.
A semaglutida ganhou destaque nos últimos anos por seu uso no controle do diabetes e, em formulações específicas, no tratamento da obesidade. A substância pertence à classe dos agonistas do receptor de GLP-1, que ajudam a controlar a glicose no sangue e aumentam a sensação de saciedade.
Genérico terá a mesma eficácia?
De acordo com o endocrinologista Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes e Campanhas da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a aprovação da Anvisa indica que o medicamento passou pelas avaliações regulatórias necessárias.
Isso significa que o produto foi submetido a critérios de segurança, qualidade e equivalência exigidos para o registro. Ainda assim, a substituição de um medicamento por outro deve ser avaliada individualmente pelo profissional responsável pelo tratamento.
Quem usa Ozempic ou Wegovy poderá trocar pelo genérico?
A existência da mesma substância ativa não significa que a troca deva ser feita automaticamente.
Pacientes que utilizam medicamentos à base de semaglutida devem conversar com o médico antes de qualquer mudança. A possibilidade de substituição depende, entre outros fatores, das características do produto e das regras de intercambialidade estabelecidas pela Anvisa.
O novo medicamento poderá ser usado para emagrecimento?
Esse é um dos principais pontos de atenção.
Os produtos aprovados nesta decisão têm indicação para adultos com diabetes tipo 2 que não apresentam controle adequado da doença, como parte de um tratamento que também envolve alimentação e atividade física.
Portanto, o registro concedido para essas apresentações não significa autorização para o tratamento da obesidade.
A semaglutida também é utilizada no controle do peso em formulações e dosagens específicas. Segundo Fernando Valente, porém, a disponibilidade de opções mais acessíveis para o diabetes pode ter reflexos indiretos nesse mercado, já que doses menores da substância também podem produzir perda de peso.
Quanto deve custar?
O preço oficial do novo genérico ainda não foi divulgado pela EMS.
O Ozivy, medicamento de referência produzido pela própria farmacêutica, foi lançado com preço a partir de R$ 452. Pela regulamentação brasileira, medicamentos genéricos devem chegar ao mercado com preço pelo menos 35% inferior ao do medicamento de referência.
Considerando esse valor, o preço mínimo teórico ficaria próximo de R$ 294. O valor efetivamente praticado, entretanto, dependerá da definição oficial de preço e das condições de comercialização.
Quando chega às farmácias?
A EMS informou que o medicamento deverá chegar ao mercado nos próximos meses. A disponibilidade, porém, ainda depende da conclusão dos trâmites regulatórios e das definições relacionadas à precificação.
Ou seja, o registro da Anvisa não significa que o produto já esteja disponível para compra nas farmácias.
O que muda para quem tem diabetes?
Para especialistas, o principal impacto da chegada do genérico pode estar justamente na possibilidade de reduzir uma das maiores barreiras ao tratamento: o custo.
A semaglutida é utilizada no tratamento de uma doença crônica, o que significa que muitos pacientes precisam manter a terapia por períodos prolongados. Uma redução no preço pode facilitar tanto o início quanto a continuidade do tratamento.
“São doenças crônicas que exigem tratamento prolongado. Quando o preço diminui, aumenta a chance de o paciente iniciar o tratamento e, mais do que isso, conseguir mantê-lo no longo prazo”, explica Fernando Valente.
A chegada de novas opções também tende a aumentar a concorrência no mercado, o que pode contribuir para ampliar o acesso aos medicamentos à base de semaglutida.


