InícioSaúde | Bem-estarGeração sóbria: jovens trocam álcool por medicamentos e acendem alerta sobre ansiedade

Geração sóbria: jovens trocam álcool por medicamentos e acendem alerta sobre ansiedade

Busca por alternativas ao álcool tem levado parte da Geração Z a usar medicamentos de prescrição sem acompanhamento médico para enfrentar situações sociais; especialistas alertam para riscos de dependência e intoxicação.

A chamada “geração sóbria” está mudando a relação dos jovens adultos com o álcool. Mas, ao mesmo tempo em que cresce o número daqueles que preferem evitar bebidas alcoólicas, surge uma preocupação entre especialistas: alguns jovens estão recorrendo a medicamentos de prescrição e outras substâncias para conseguir socializar, relaxar ou experimentar efeitos semelhantes aos da embriaguez.

O fenômeno ganhou atenção a partir de relatos de jovens que passaram a utilizar medicamentos como pregabalina e propranolol sem acompanhamento adequado. A motivação, em muitos casos, está relacionada à ansiedade social e ao medo de situações como festas, encontros e reuniões.

Um jovem britânico de 22 anos, identificado como Matt — nome fictício — contou que passou a usar medicamentos comprados ilegalmente pela internet depois de sentir que não conseguia participar de conversas em ambientes sociais. Segundo ele, as substâncias diminuíam a ansiedade e facilitavam a interação com outras pessoas.

O problema é que medicamentos desenvolvidos para tratar determinadas condições de saúde não são equivalentes ao álcool e não devem ser utilizados por conta própria para produzir efeitos recreativos.

Quando a busca por uma alternativa vira outro risco

A pregabalina, por exemplo, é utilizada no tratamento de epilepsia e dores neuropáticas e também pode ser prescrita para determinadas condições de ansiedade. Já o propranolol é um betabloqueador que pode reduzir manifestações físicas da ansiedade, como coração acelerado e tremores.

O uso inadequado, porém, pode trazer consequências graves. A automedicação, o aumento das doses e a combinação de diferentes substâncias podem elevar o risco de efeitos adversos, intoxicação e dependência.

Um estudo publicado na revista Nature Communications, que analisou dados de 65 países e regiões, identificou aumento de mais de quatro vezes no consumo global de medicamentos da classe dos gabapentinoides entre 2008 e 2018. Os pesquisadores também destacaram preocupações relacionadas ao uso indevido, dependência, hospitalizações e mortalidade.

Menos álcool, mais pressão para se socializar?

A mudança de comportamento em relação ao álcool é real em parte da população jovem. No Reino Unido, pesquisas vêm acompanhando o crescimento da moderação e da abstinência entre adultos jovens, enquanto o consumo de álcool passou a ser associado com maior frequência a questões de saúde e bem-estar.

Esse movimento ajudou a popularizar o termo “geração sóbria”, usado para descrever principalmente jovens que optam por beber menos ou não beber.

O paradoxo é que abandonar o álcool não significa necessariamente abandonar a necessidade de encontrar alguma forma de lidar com a ansiedade em ambientes sociais.

Para especialistas, esse é um dos pontos centrais do problema. Se a pessoa acredita que precisa de uma substância para conseguir conversar, sair, participar de uma festa ou conhecer alguém, a questão pode deixar de ser apenas uma escolha relacionada ao álcool e passar a envolver a própria saúde mental.

Redes sociais ampliam acesso à informação — e ao risco

As redes sociais também desempenham papel importante nesse cenário.

Vídeos e publicações sobre medicamentos e combinações de substâncias podem apresentar determinados produtos como alternativas “mais seguras” ou sem os efeitos desagradáveis associados ao álcool. Em alguns casos, usuários compartilham experiências pessoais e incentivam o chamado stacking, termo utilizado na internet para descrever a combinação de diferentes substâncias.

O problema é que conteúdos desse tipo podem transformar medicamentos de uso controlado ou produtos não regulamentados em itens aparentemente comuns.

Além disso, a facilidade de encontrar vendedores ilegais na internet aumenta a preocupação. Quando o medicamento é obtido fora dos canais oficiais, o consumidor pode sequer ter certeza sobre sua procedência, concentração ou composição.

A ansiedade social também merece atenção

O fenômeno está relacionado a uma questão mais ampla: o crescimento das preocupações com ansiedade entre jovens adultos.

Especialistas citados no levantamento apontam que as mudanças provocadas pela pandemia de Covid-19, incluindo períodos prolongados de isolamento e redução da convivência presencial, podem ter contribuído para dificuldades de interação social em parte dessa geração.

Nesse contexto, procurar medicamentos para conseguir enfrentar uma festa ou uma reunião pode parecer uma solução rápida. Mas, em vez de tratar a origem do problema, o uso inadequado pode criar uma nova dependência.

A preocupação aumenta quando a pessoa passa a acreditar que não consegue participar de situações sociais sem determinada substância.

O alerta dos especialistas

A principal recomendação é não tratar medicamentos de prescrição como alternativas recreativas ao álcool.

Mesmo quando um medicamento é legalmente prescrito e utilizado para uma finalidade médica, isso não significa que ele seja seguro para qualquer pessoa, em qualquer dose ou combinado com outras substâncias.

Também é importante diferenciar a redução do consumo de álcool do uso de medicamentos para produzir efeitos semelhantes. Uma escolha considerada mais saudável pode acabar acompanhada por outro comportamento de risco quando há automedicação.

O caso da chamada “geração sóbria” revela, portanto, uma contradição: ao mesmo tempo em que muitos jovens estão repensando o consumo de álcool, parte deles procura novas formas químicas de lidar com a ansiedade e a pressão social.

Mais do que discutir qual substância seria “melhor”, especialistas defendem atenção à razão que está levando esses jovens a procurar alguma substância em primeiro lugar.

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