Novo longa de Allan Deberton acompanha Gugu, um menino que enfrenta a intolerância sem abrir mão de sua maneira de ser e convida o público a refletir sobre como o preconceito é aprendido
Há crianças que descobrem o mundo pela curiosidade, pelas brincadeiras e pelos sonhos. Mas há também aquelas que, ainda muito cedo, descobrem que nem todo mundo aceita quem foge dos padrões impostos pela sociedade. É nesse território delicado que se passa “Feito Pipa”, novo filme dirigido por Allan Deberton, de O Melhor Amigo.
O longa acompanha Gugu, interpretado por Yuri Gomes, um menino espontâneo, carismático e cheio de personalidade. Ele gosta de se maquiar, dançar, brincar com os amigos e jogar futebol. Não parece disposto a esconder aquilo que o faz feliz, mesmo quando percebe que sua forma de ser incomoda outras pessoas.
Na escola, Gugu enfrenta provocações e olhares de reprovação. O comportamento dos colegas revela uma questão central do filme: como crianças tão pequenas podem reproduzir atitudes de intolerância antes mesmo de compreender completamente as diferenças que estão diante delas?

Em casa, o menino encontra na avó Dilma, interpretada por Teca Pereira, uma figura de carinho e proteção. É ela quem assume grande parte dos cuidados com Gugu após a morte da mãe.
A relação, porém, começa a mudar quando Dilma apresenta sinais de Alzheimer e deixa de ter condições de cuidar do neto e de si mesma. A partir daí, Gugu passa a enfrentar uma realidade ainda mais difícil.
Um pai tentando moldar o filho
Lázaro Ramos interpreta Batista, pai de Gugu e caminhoneiro que tem dificuldade para aceitar a personalidade do próprio filho.
Batista tenta conduzi-lo para aquilo que considera um comportamento mais adequado para um menino. Incentiva o futebol, procura afastá-lo de características que considera inadequadas e chega a tomar atitudes que revelam seu desconforto diante da possibilidade de o filho crescer fora das expectativas que ele estabeleceu.
O conflito entre os dois não está apenas na relação entre pai e filho. O personagem de Batista representa também a pressão social para que meninos e meninas sigam determinados padrões desde a infância.
O filme não transforma Gugu em alguém que precisa ser “corrigido”. Pelo contrário. A história coloca em discussão justamente a necessidade de permitir que uma criança cresça sem carregar o peso das expectativas dos adultos.
Quando o preconceito chega antes da compreensão
Um dos aspectos mais marcantes de Feito Pipa está na maneira como a obra aborda o preconceito infantil.
Gugu não precisa explicar quem é para merecer respeito. Ele simplesmente existe, brinca, sonha e se expressa à sua maneira. Ainda assim, encontra hostilidade daqueles que não compreendem — ou não foram ensinados a compreender — aquilo que é diferente.
A situação provoca uma reflexão incômoda: de onde vem o preconceito que aparece tão cedo?
O filme sugere que a intolerância não nasce necessariamente com a criança. Ela pode ser construída a partir do ambiente, das falas, dos comportamentos e dos exemplos que os pequenos observam ao redor.
Por isso, a história de Gugu ultrapassa a trajetória de um único personagem. Ela fala sobre tantas outras crianças que aprendem, ainda cedo, que determinadas formas de vestir, brincar, falar ou demonstrar sentimentos podem ser consideradas inadequadas.
Uma infância que não deveria precisar de defesa
Mesmo diante das dificuldades, Gugu mantém uma característica que chama atenção durante a narrativa: sua capacidade de continuar sonhando.
Logo no início do filme, quando a avó pergunta para onde ele está indo, o menino responde que vai “salvar o mundo”. Montado em sua bicicleta e usando uma capa como se fosse um super-herói, ele representa uma infância que ainda acredita que é possível transformar aquilo que parece injusto.
É justamente essa imagem que dá força ao personagem.
Gugu não é apresentado apenas como uma criança vítima do preconceito. Ele também é alguém que encontra coragem para continuar sendo ele mesmo, mesmo quando o mundo ao redor tenta convencê-lo do contrário.
Uma reflexão que ultrapassa o cinema
Ao colocar uma criança no centro de uma história sobre intolerância, Feito Pipa propõe uma discussão que vai muito além da tela.
A obra questiona o que os adultos ensinam às crianças e, principalmente, o que deixam de ensinar. Respeito, empatia e convivência com as diferenças não surgem automaticamente. São valores construídos dentro de casa, na escola e na sociedade.
O filme também chama atenção para uma contradição dolorosa: enquanto uma criança pode simplesmente enxergar outra como amiga ou colega, os adultos podem colocar sobre ela expectativas, medos e preconceitos que acabam interferindo na maneira como ela é tratada.
Ao acompanhar Gugu, o público é convidado a olhar para a infância não como um período em que todos precisam se encaixar, mas como uma fase em que deveria existir espaço para descobrir quem se é.
Mais do que contar a história de um menino que enfrenta o preconceito, “Feito Pipa” fala sobre a coragem de permanecer inteiro quando tentam convencer você de que existe algo errado em ser diferente.
E talvez a pergunta mais importante deixada pelo filme seja justamente esta: por que algumas crianças aprendem tão cedo a rejeitar aquilo que não conhecem, quando poderiam aprender primeiro a respeitar, acolher e amar?


