InícioSaúde | Bem-estarQuando distração parece egoísmo: o que pode estar por trás desse comportamento

Quando distração parece egoísmo: o que pode estar por trás desse comportamento

Esquecimentos, interrupções e dificuldade para cumprir horários podem ser interpretados como falta de consideração, mas, em pessoas com TDAH, podem estar relacionados a dificuldades de atenção, organização e controle dos impulsos

Comportamentos do dia a dia que parecem demonstrar desinteresse, descuido ou até egoísmo podem ter outras explicações. Esquecer de responder uma mensagem, perder um horário, interromper alguém durante uma conversa, se distrair facilmente ou deixar uma tarefa para depois são situações que podem provocar conflitos, principalmente quando se tornam frequentes.

A cantora Claudia Leitte voltou recentemente a falar publicamente sobre seu diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e chamou atenção para um aspecto pouco discutido: os julgamentos que podem surgir quando características do transtorno são interpretadas apenas pelo comportamento observado.

Segundo ela, depois de tornar o diagnóstico público, também passou a perceber situações de preconceito. Entre elas, a associação de determinadas atitudes relacionadas ao TDAH com falta de consideração ou egoísmo.

Nem sempre existe intenção de desrespeitar

O TDAH pode afetar diferentes funções relacionadas ao cotidiano, incluindo atenção, memória de trabalho, organização, percepção do tempo e controle dos impulsos. Por isso, algumas atitudes podem acontecer mesmo quando não existe a intenção de ignorar ou desrespeitar outra pessoa.

O psiquiatra Tales Vilela, especialista em Psiquiatria Infantil e diretor clínico do Instituto Essencialmente, explica que compreender esse mecanismo não significa ignorar os efeitos que determinadas atitudes provocam nas relações.

“O TDAH interfere na regulação da atenção e pode repercutir na organização, na percepção do tempo e no controle dos impulsos. Então, alguém pode esquecer um compromisso importante ou interromper uma conversa sem que exista a intenção de desrespeitar o outro. Isso não elimina o impacto que o comportamento provoca, mas muda a maneira de compreender por que ele acontece.”

Na prática, isso significa que uma pessoa pode se importar genuinamente com alguém e, ainda assim, apresentar dificuldades para demonstrar essa consideração da maneira esperada.

Um compromisso esquecido, por exemplo, pode ser interpretado como falta de prioridade. Já uma interrupção durante uma conversa pode parecer impaciência ou desinteresse. Em alguns casos, porém, essas atitudes podem estar relacionadas a dificuldades de controle da atenção e dos impulsos.

Nem todo esquecimento significa TDAH

Ao mesmo tempo, especialistas alertam para outro extremo: transformar qualquer distração ou esquecimento em sinal de transtorno.

Perder objetos, esquecer uma tarefa ou ter dificuldade de concentração são experiências comuns e podem acontecer por diversos motivos, como cansaço, estresse, excesso de atividades ou simplesmente circunstâncias pontuais.

Por isso, o diagnóstico de TDAH não é baseado em uma característica isolada.

A neuropsicóloga Roberta Machado destaca que a avaliação considera um conjunto de sinais, sua frequência e o impacto que provocam na vida da pessoa.

“Não podemos transformar características isoladas em diagnóstico. No TDAH, avaliamos um conjunto de funções, como atenção, planejamento, organização, controle inibitório e regulação emocional, além de observar como essas dificuldades aparecem em diferentes contextos e interferem efetivamente na rotina. É essa análise mais ampla que diferencia uma dificuldade pontual de um quadro que precisa ser investigado.”

Compreender não significa deixar de assumir responsabilidades

Outro ponto importante é que reconhecer a existência do TDAH não significa considerar que a pessoa está isenta das consequências de suas atitudes.

O diagnóstico pode ajudar a compreender a origem de determinadas dificuldades, mas também pode ser um ponto de partida para desenvolver estratégias que reduzam seus impactos nas relações pessoais e profissionais.

Alarmes, agendas, lembretes, organização de horários e estratégias para evitar interrupções durante conversas são alguns dos recursos que podem facilitar a rotina.

“Entender o diagnóstico não significa dizer que tudo está permitido. Significa reconhecer uma dificuldade real e desenvolver recursos para lidar com ela. Alarmes, agendas, organização da rotina e estratégias para controlar interrupções, por exemplo, podem ajudar. O TDAH não define a capacidade intelectual, profissional ou afetiva de uma pessoa”, completa Tales.

O comportamento não conta toda a história

A discussão também ajuda a lembrar que nem sempre é possível conhecer a intenção de alguém apenas observando uma atitude.

Uma pessoa que esquece uma mensagem pode estar sendo interpretada como indiferente. Quem chega atrasado pode ser visto como irresponsável. Alguém que interrompe uma conversa pode parecer desrespeitoso.

Essas interpretações podem até refletir o impacto real daquele comportamento, mas não necessariamente explicam sua causa.

Para quem convive com alguém com TDAH, compreender essa diferença pode contribuir para relações mais equilibradas: reconhecer o impacto da atitude, conversar sobre ele e, ao mesmo tempo, buscar entender quais dificuldades estão por trás daquele comportamento.

Mais do que justificar tudo pelo diagnóstico, a proposta é substituir julgamentos automáticos por informação. Afinal, nem toda distração é desinteresse, assim como nem todo esquecimento é falta de consideração.

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