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Seu corpo pode envelhecer em “saltos”: estudo aponta mudanças importantes aos 30 e 50 anos

Pesquisa com mais de 25 mil amostras de tecidos humanos revela que órgãos envelhecem em ritmos diferentes e identifica períodos de maior transformação estrutural ao longo da vida

O envelhecimento humano pode não acontecer de maneira contínua e uniforme. Um novo estudo publicado na revista científica Nature Aging sugere que diferentes tecidos do organismo passam por períodos de mudanças mais intensas, com dois momentos especialmente marcantes: a faixa dos 30 anos e a dos 50 anos.

A pesquisa foi realizada por cientistas do Sanford Burnham Prebys Medical Discovery Institute, nos Estados Unidos, em parceria com o Instituto Nacional do Câncer (NCI). Os pesquisadores analisaram 25.306 amostras de tecidos de 970 pessoas, com idades entre 21 e 70 anos, utilizando dados do projeto GTEx, ligado aos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH).

O objetivo foi entender como a estrutura dos tecidos humanos se modifica ao longo da vida e se essas transformações acontecem de maneira semelhante em diferentes órgãos.

Uma nova maneira de observar o envelhecimento

Para realizar a análise, os cientistas desenvolveram uma ferramenta de inteligência artificial chamada PathStAR, criada para identificar alterações estruturais nos tecidos a partir de imagens utilizadas em exames de patologia.

Em vez de simplesmente tentar estimar a idade de uma pessoa, o sistema observa características microscópicas dos tecidos, incluindo a organização das células, dos vasos sanguíneos e da matriz que dá sustentação aos órgãos.

Com milhões de pequenos fragmentos analisados em cada lâmina, os pesquisadores conseguiram reconstruir padrões de transformação dos tecidos ao longo das diferentes faixas etárias.

O resultado mostrou que não existe um único ritmo de envelhecimento para todo o organismo.

Artérias começam a mudar mais cedo

Entre os tecidos analisados, as artérias apresentaram um comportamento particularmente precoce. As alterações estruturais mais aceleradas foram observadas principalmente entre os 30 e 39 anos.

Esse período coincide com evidências anteriores de que alterações relacionadas à formação de placas nas paredes das artérias podem começar a aparecer ainda durante a terceira década de vida.

Outros tecidos, porém, seguem uma trajetória diferente.

O útero e a vagina apresentaram relativa estabilidade durante parte da vida adulta e passaram por mudanças estruturais mais intensas entre os 50 e 55 anos, período que coincide com a transição para a menopausa.

Dois períodos de transformação

O padrão mais frequente encontrado pelos pesquisadores foi chamado de envelhecimento bifásico.

Nove dos 14 tecidos que apresentaram resultados estatisticamente mais consistentes demonstraram dois períodos distintos de aceleração das mudanças estruturais, geralmente concentrados na faixa dos 30 e dos 50 anos.

O fenômeno foi observado em tecidos de órgãos como esôfago, estômago, intestino, cólon, próstata e testículos.

Os ovários também apresentaram esse padrão, mas com características próprias. As mudanças mais aceleradas ocorreram aproximadamente entre 35 e 40 anos e, novamente, entre 55 e 60 anos.

A primeira fase coincide com um período de redução progressiva da fertilidade feminina, enquanto a segunda ocorre após a menopausa.

Ovários podem ter papel de “marca-passo”

Um dos resultados que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a sincronização observada entre órgãos diferentes.

Tecidos sem ligação anatômica direta apresentaram padrões semelhantes de transformação. Segundo os autores, mais da metade dos tecidos estudados acompanhou o padrão observado nos ovários.

Essa associação levou os pesquisadores a levantar a hipótese de que os hormônios possam atuar como uma espécie de sistema de sincronização do envelhecimento em diferentes partes do corpo.

A ideia é que alterações na sinalização hormonal não afetem somente os órgãos diretamente envolvidos na reprodução, mas também tecidos espalhados pelo organismo.

O estudo encontrou, inclusive, redução significativa da sinalização hormonal em tecidos do sistema gastrointestinal, que possuem receptores para hormônios como o estrogênio.

O que acontece dentro dos tecidos?

Apesar das diferenças entre os órgãos, os períodos de envelhecimento estrutural mais acelerado apresentaram características moleculares semelhantes.

Entre elas estão o aumento de processos inflamatórios, a redução da capacidade de produção de energia pelas células, alterações na multiplicação celular e uma menor eficiência dos mecanismos responsáveis por identificar e reparar danos.

Essas mudanças ajudam a explicar por que o envelhecimento pode estar associado a uma maior vulnerabilidade do organismo a diferentes problemas ao longo da vida.

Para os pesquisadores, compreender esses períodos de transformação pode ajudar futuramente no desenvolvimento de estratégias de prevenção e tratamentos direcionados para determinados órgãos.

Estudo ainda não permite prever o envelhecimento de uma pessoa

Apesar dos resultados chamativos, os cientistas destacam que a pesquisa não significa que todas as pessoas passarão exatamente pelos mesmos processos aos 30 ou aos 50 anos.

As amostras utilizadas foram obtidas após a morte dos doadores, e as condições de saúde e as causas das mortes podem ter influenciado algumas características observadas nos tecidos.

Além disso, uma alteração estrutural associada à idade não necessariamente significa perda de função. Algumas mudanças podem representar adaptações do organismo ou simplesmente variações naturais.

As faixas etárias analisadas também são relativamente amplas, o que impede estabelecer uma idade exata para o início de cada transformação em uma pessoa específica.

Ainda assim, o estudo reforça uma perspectiva importante para a ciência do envelhecimento: o corpo humano provavelmente não possui apenas um relógio biológico responsável por determinar seu envelhecimento.

Em vez disso, diferentes órgãos podem ter seus próprios ritmos, influenciados por fatores genéticos, metabólicos e hormonais. Entender como esses relógios se relacionam pode abrir novas possibilidades para aumentar não apenas a longevidade, mas principalmente o período da vida vivido com saúde e qualidade.

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