Plataforma desenvolvida na Universidade de Mogi das Cruzes reproduz situações de desequilíbrio e combina dados corporais, musculares e cerebrais para identificar causas e orientar tratamentos personalizados
As quedas estão entre os principais riscos à saúde da população idosa e podem provocar consequências graves, especialmente entre pessoas com idade mais avançada. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) registra, em média, 285 atendimentos diários relacionados a quedas de idosos. O cenário motivou pesquisadores da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), em São Paulo, a desenvolver uma tecnologia capaz de investigar de maneira mais precisa as causas da perda de equilíbrio e contribuir para sua prevenção.
A plataforma foi criada pelo engenheiro biomédico Alessandro Pereira da Silva, líder do Laboratório de Ambientes Virtuais e Tecnologia Assistiva (LAVITA) da universidade. O projeto começou em 2012 e evoluiu ao longo dos anos com a participação de diferentes equipes de pesquisadores.
A proposta é reproduzir, em ambiente controlado, situações que podem provocar desequilíbrio no cotidiano. Para isso, o equipamento utiliza uma plataforma móvel que consegue se movimentar em diferentes ângulos e velocidades, enquanto o paciente recebe estímulos visuais por meio de recursos de realidade virtual.
A combinação permite observar como o organismo reage quando o equilíbrio é desafiado. Segundo o pesquisador, a ideia surgiu a partir de uma limitação percebida nos métodos tradicionais de avaliação, nos quais o próprio paciente era responsável por realizar movimentos para provocar alterações no equilíbrio.
Com a plataforma móvel, a situação se aproxima mais do que acontece na vida real, quando uma mudança no piso ou uma instabilidade do ambiente pode provocar uma perda repentina de equilíbrio.
Tecnologia acompanha diferentes respostas do organismo
Um dos diferenciais do sistema está na quantidade de informações coletadas simultaneamente. Entre os parâmetros analisados está o centro de pressão (COP), que permite verificar como o corpo distribui o peso durante os movimentos.
A plataforma também pode avaliar a velocidade de deslocamento, a distribuição da carga corporal, a ativação muscular por meio da eletromiografia (EMG) e a atividade cerebral utilizando eletroencefalograma (EEG).
Esses dados ajudam os pesquisadores a identificar padrões que podem indicar alterações no sistema de equilíbrio. Uma distribuição maior de peso sobre um dos lados do corpo, por exemplo, pode estar relacionada a fraqueza muscular, alterações vestibulares ou mecanismos de compensação postural.
A tecnologia também ganhou recursos de realidade virtual por meio de jogos desenvolvidos para provocar situações específicas. O objetivo é investigar não apenas se uma pessoa perde o equilíbrio, mas tentar entender por que isso acontece.
Realidade virtual simula situações de risco
Um dos experimentos utiliza o jogo chamado Waterfall. Nele, o paciente é colocado virtualmente em uma situação de navegação por um rio e precisa reagir aos obstáculos apresentados durante a experiência.
Enquanto a pessoa participa da atividade, o sistema registra diferentes sinais do organismo. A equipe consegue avaliar, por exemplo, o intervalo entre o estímulo visual e a ativação das respostas motoras responsáveis pela manutenção do equilíbrio.
Esse acompanhamento permite estudar o chamado controle postural antecipatório, mecanismo que prepara o corpo para uma mudança de movimento, além da resposta compensatória dos músculos.
Outro diferencial apontado pelos pesquisadores é a sincronização das informações. Dados relacionados ao cérebro, músculos e movimentos corporais são analisados dentro de uma mesma linha temporal, permitindo uma avaliação integrada do comportamento do paciente.
Pesquisa também investiga diferenças entre homens e mulheres
Durante o desenvolvimento do projeto, os pesquisadores também utilizaram a plataforma para investigar fatores associados ao equilíbrio de diferentes grupos.
Em uma análise preliminar, a equipe avaliou a hipótese de que mulheres idosas poderiam apresentar maior dificuldade de equilíbrio que homens da mesma faixa etária. Os resultados indicaram uma possível relação com alterações no sistema de ajuste postural antecipatório.
A investigação faz parte de um esforço maior para compreender os diferentes mecanismos que contribuem para as quedas, incluindo envelhecimento do sistema nervoso, perda de massa e força muscular e alterações nos mecanismos responsáveis pela estabilidade corporal.
Tecnologia pode chegar ao mercado
Depois de anos de pesquisa acadêmica, a plataforma entrou em uma nova etapa de desenvolvimento. O projeto recebeu impulso por meio do programa PIPE, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), permitindo transformar os estudos em um protótipo voltado para utilização comercial.
A tecnologia foi desenvolvida dentro da Kerygma Technology, startup incubada na universidade e que tem Alessandro Pereira da Silva como cofundador e CEO.
Atualmente, o equipamento aguarda processos de aprovação junto ao Inmetro e à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A proposta é que cada plataforma seja produzida sob demanda, com prazo estimado de aproximadamente 25 dias. O equipamento poderá ser adquirido ou alugado por instituições interessadas.
Os usuários também poderão escolher entre diferentes níveis de análise. Uma opção prevê a geração de um relatório simplificado pela própria plataforma. Outra possibilidade envolve uma avaliação mais detalhada dos dados com auxílio de inteligência artificial.
IA deve ampliar análise dos pacientes
A inteligência artificial aparece como uma das próximas etapas do projeto. A intenção dos pesquisadores é desenvolver agentes capazes de interpretar os dados coletados, acompanhar a evolução de uma terapia e auxiliar na identificação de alternativas mais adequadas para cada paciente.
A ideia é utilizar a tecnologia como ferramenta de apoio aos profissionais, oferecendo informações que possam contribuir para uma avaliação individualizada.
O preço inicial estimado para a compra da plataforma deve ficar entre R$ 180 mil e R$ 250 mil. Segundo o pesquisador, o valor representa uma alternativa mais acessível em comparação com equipamentos semelhantes disponíveis no mercado internacional.
Mais do que reproduzir situações de desequilíbrio, a tecnologia desenvolvida na UMC busca transformar a avaliação das quedas em uma análise integrada, capaz de identificar fatores envolvidos na perda de estabilidade e contribuir para estratégias de prevenção e tratamento.
Para os pesquisadores, a aproximação entre universidade e mercado pode fazer com que anos de investigação científica se transformem em soluções práticas para melhorar a segurança e a qualidade de vida da população idosa.


