Plataforma nacional amplia chances de adolescentes, irmãos e crianças com deficiência encontrarem uma família e fortalece a adoção tardia no país
O Brasil deu um novo passo para enfrentar um dos maiores desafios do sistema de adoção: a dificuldade de adolescentes, grupos de irmãos e crianças com deficiência encontrarem uma família. O novo aplicativo de adoção do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), integrado ao Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), aposta na tecnologia e na humanização para ampliar as oportunidades da chamada adoção tardia.
Lançado oficialmente no Dia Nacional da Adoção, celebrado em 25 de maio, o aplicativo A.Dot fortalece a chamada busca ativa — modelo que aproxima pretendentes habilitados de crianças e adolescentes que historicamente possuem menos chances de adoção.
Diferente do modelo tradicional, centrado apenas em dados burocráticos e processos judiciais, a plataforma permite que crianças e adolescentes sejam apresentados por meio de vídeos, fotos e relatos pessoais autorizados judicialmente. A proposta busca mostrar identidade, sonhos, personalidade e vínculos familiares, criando uma aproximação mais humana entre os pretendentes e aqueles que aguardam por uma família.
Hoje, a maior parte das famílias habilitadas no Brasil ainda procura perfis considerados mais restritos, especialmente bebês, crianças pequenas, sem irmãos e sem deficiência. Enquanto isso, milhares de adolescentes permanecem por anos em instituições de acolhimento aguardando uma oportunidade de convivência familiar.
Segundo dados do próprio CNJ, mais de 90% das crianças e adolescentes inseridos atualmente na busca ativa possuem mais de oito anos. Mais de 60% têm irmãos, fator que também reduz as possibilidades de adoção quando famílias optam por adotar apenas uma criança.
A realidade ajuda a explicar por que a adoção tardia ainda enfrenta tantas barreiras emocionais, culturais e sociais no país. Especialistas da área da infância alertam que longos períodos em acolhimento institucional podem impactar diretamente a construção de vínculos afetivos e aumentar sentimentos de isolamento, especialmente durante a adolescência.
A proposta do aplicativo é justamente combater essa invisibilidade afetiva.
Desde sua criação em 2018, ainda em parceria com o Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), o aplicativo A.Dot já contribuiu para 216 adoções. Desse total, 135 envolveram adolescentes acima de 13 anos — uma das faixas etárias com menor procura dentro do sistema nacional de adoção.
Uma das histórias que simbolizam o impacto da plataforma é a dos irmãos gêmeos Marcos Augusto e Maria Vitória Sertório Gatti. Após passarem 11 anos em uma instituição de acolhimento no Paraná, os dois gravaram um vídeo relatando o sonho de serem adotados juntos. O conteúdo emocionou Sueli Sertório e Rafael Gatti, que decidiram acolher os adolescentes após assistirem repetidamente ao vídeo publicado na plataforma.
O caso também reforça outro objetivo importante do projeto: preservar vínculos familiares. Segundo o CNJ, cerca de 65% das adoções realizadas por meio da busca ativa mantêm irmãos juntos, algo considerado fundamental para a proteção emocional de crianças e adolescentes em acolhimento.
Para o sistema de proteção à infância, irmãos frequentemente representam o principal — e muitas vezes único — vínculo afetivo preservado durante anos de institucionalização.
Apesar da modernização, o aplicativo não altera as regras legais da adoção no Brasil. O acesso permanece restrito a pretendentes já habilitados pela Justiça, com cadastro aprovado, documentação validada e preparação concluída. O login ocorre por meio da plataforma Gov.br.
O projeto também adota medidas rígidas de privacidade. Todas as informações exibidas são autorizadas judicialmente, e o uso da plataforma exige compromisso formal com sigilo e proteção da identidade das crianças e adolescentes.
Durante o lançamento nacional, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça, ministro Edson Fachin, destacou que a ferramenta fortalece o direito à convivência familiar previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e amplia o acesso qualificado à adoção no Brasil.
Atualmente, cerca de 1.801 crianças e adolescentes estão aptos para a busca ativa em todo o país.
A expectativa é que a integração nacional do aplicativo aumente significativamente a visibilidade de adolescentes, irmãos e crianças com deficiência, reduzindo o tempo de permanência em instituições de acolhimento e ampliando as oportunidades de construção de vínculos familiares permanentes antes da maioridade.


