Ansiedade, insegurança, pressão por desempenho e mudanças na forma de se relacionar ajudam a explicar o comportamento de uma geração que parece estar colocando a intimidade em outro lugar
O Dia do Sexo, celebrado em 6 de setembro, costuma ser lembrado como uma oportunidade para falar de desejo, relacionamentos e intimidade. Mas a data também abre espaço para uma discussão que contraria algumas expectativas: por que parte dos jovens está fazendo menos sexo?
Nos últimos anos, pesquisadores e especialistas passaram a observar mudanças nos hábitos afetivos e sexuais das novas gerações. O fenômeno ganhou o nome de “recessão sexual” e está relacionado à redução da frequência de relações sexuais observada em determinados grupos de jovens.
Um levantamento divulgado em 2025 pelo DatingAdvice.com em parceria com o Instituto Kinsey apontou que cerca de 37% dos jovens entrevistados se identificavam como celibatários. O dado chama atenção, mas não significa que toda a Geração Z tenha abandonado o sexo ou que exista um comportamento único entre esses jovens.
A realidade é mais complexa. Para o sexólogo Januário Mourão, especialista em Sexualidade e responsável pelo projeto “Prazer! Te conhecer”, fatores emocionais, sociais e educacionais ajudam a entender as mudanças.
Uma geração cercada de informação, mas nem sempre de orientação
A internet colocou uma quantidade enorme de informações sobre sexualidade ao alcance dos jovens. Ao mesmo tempo, isso não significa que eles estejam recebendo conhecimento de qualidade.
Durante décadas, a educação sexual esteve concentrada principalmente em prevenção de gravidez e infecções sexualmente transmissíveis. Assuntos como prazer, consentimento, limites, autoestima, comunicação e conhecimento do próprio corpo muitas vezes ficaram em segundo plano.
Com isso, muitos jovens acabam recorrendo a amigos, redes sociais, relatos pessoais e pornografia para descobrir como deveriam se comportar em uma relação.
O problema é que essas referências podem criar expectativas pouco realistas.
A pornografia, por exemplo, é produzida para entretenimento e não representa necessariamente corpos, relacionamentos ou experiências sexuais da vida real. Quando utilizada como principal fonte de informação, pode contribuir para comparações e cobranças.
A ansiedade também chegou à vida íntima
A pressão para ter um bom desempenho pode transformar uma experiência que deveria envolver conexão e prazer em uma situação de avaliação.
Entre os homens, a cobrança por iniciativa, desempenho e confiança pode alimentar o medo de falhar ou de não corresponder às expectativas. Entre as mulheres, inseguranças relacionadas ao corpo, dificuldade de expressar desejos e limites e a própria relação com o prazer também podem interferir.
Nesse cenário, evitar uma relação pode parecer mais confortável do que enfrentar a possibilidade de constrangimento, rejeição ou julgamento.
Por isso, fazer menos sexo não significa necessariamente ter menos desejo. Em determinadas situações, pode representar uma escolha consciente; em outras, pode estar relacionado a inseguranças ou dificuldades emocionais.
Redes sociais mudaram a maneira de se relacionar
A Geração Z também vive uma realidade em que boa parte da interação social acontece por meio das telas.
Aplicativos de relacionamento facilitaram o contato entre pessoas, mas também trouxeram uma dinâmica marcada pela rapidez, pela escolha constante e pela possibilidade de substituir uma conexão por outra.
Nas redes sociais, a exposição permanente também favorece comparações. Corpos, relacionamentos e experiências são apresentados de maneira cuidadosamente selecionada, criando a impressão de que outras pessoas estão sempre vivendo mais, melhor e com maior facilidade.
Essa comparação pode afetar a autoestima e aumentar a insegurança na hora de estabelecer uma relação presencial.
Sexo deixou de ser uma obrigação?
Outro ponto importante é que as novas gerações parecem estar mais abertas a questionar determinadas expectativas sociais.
Durante muito tempo, existiu a ideia de que adultos deveriam estar em relacionamentos e manter uma vida sexual ativa. Hoje, uma parcela dos jovens demonstra maior liberdade para escolher quando, como e se deseja se envolver sexualmente.
Isso significa que períodos sem sexo podem simplesmente fazer parte das escolhas individuais.
Não existe uma frequência universal que determine se uma pessoa tem uma vida sexual saudável. O que importa é que as experiências sejam consensuais, seguras e estejam de acordo com os desejos e limites de cada indivíduo.
Quando a falta de sexo merece atenção?
O problema não está necessariamente em fazer menos sexo.
A situação merece atenção quando a pessoa gostaria de viver experiências afetivas ou sexuais, mas se sente impedida por medo, ansiedade, baixa autoestima, experiências negativas, falta de informação ou dificuldade de estabelecer vínculos.
Nesses casos, conversar com profissionais especializados pode ajudar a compreender as causas e encontrar caminhos mais saudáveis.
A discussão também reforça a importância de uma educação sexual baseada em informações confiáveis. Conhecer o próprio corpo e compreender consentimento, limites, prevenção, respeito e comunicação pode contribuir para relações mais seguras e menos marcadas pela cobrança.
Uma mudança de comportamento que diz muito sobre a sociedade
A chamada “recessão sexual” não deve ser interpretada como uma crise de toda uma geração. O comportamento dos jovens é diverso e sofre influência de fatores econômicos, culturais, emocionais e sociais.
Mais interessante do que perguntar “por que os jovens estão fazendo menos sexo?” talvez seja entender o que mudou na maneira como eles enxergam intimidade, relacionamento e desejo.
Em uma época marcada por excesso de informação, exposição nas redes e novas formas de interação, a intimidade também está passando por transformações.
E, no fim das contas, talvez a principal questão não seja a quantidade de sexo, mas a qualidade das relações e a liberdade para escolher aquilo que realmente faz sentido para cada pessoa.


