Estratégias usadas para se adaptar às expectativas sociais podem dificultar a identificação do autismo e aumentar o desgaste emocional ao longo dos anos
Durante a infância e a adolescência, algumas meninas aprendem a observar cuidadosamente o comportamento das pessoas ao redor e a reproduzir gestos, expressões, formas de falar e maneiras de interagir para se sentirem incluídas. Por fora, podem parecer tranquilas, comunicativas, organizadas ou até muito maduras para a idade. Por dentro, porém, esse esforço constante de adaptação pode exigir uma grande quantidade de energia.
Esse processo é conhecido como camuflagem social, ou masking, e pode contribuir para que características do Transtorno do Espectro Autista (TEA) permaneçam menos evidentes, especialmente durante a infância.
A camuflagem não significa que a pessoa esteja deliberadamente escondendo quem é. Em muitos casos, são estratégias desenvolvidas ao longo do tempo para lidar com situações sociais, reduzir a sensação de inadequação ou simplesmente conseguir participar de ambientes nos quais determinados comportamentos são esperados.
O que é a camuflagem social?
A camuflagem social ocorre quando uma pessoa utiliza diferentes estratégias para esconder ou compensar características relacionadas ao autismo durante as interações sociais.
Entre os comportamentos que podem aparecer estão:
- ensaiar mentalmente conversas antes de situações sociais;
- observar outras pessoas para entender como agir e depois reproduzir seus comportamentos;
- controlar movimentos repetitivos ou outras formas de autorregulação;
- forçar o contato visual mesmo quando ele provoca desconforto;
- memorizar expressões, respostas ou assuntos para facilitar conversas;
- adaptar constantemente a maneira de falar, gesticular ou demonstrar emoções.
Uma pessoa pode, por exemplo, passar horas se preparando mentalmente para uma situação aparentemente simples, como uma reunião, uma festa ou um encontro com outras pessoas.
O esforço nem sempre é percebido por quem está ao redor.
Por que o autismo pode ser identificado mais tarde em mulheres?
A apresentação do autismo é bastante diversa. Por isso, não existe um único comportamento que determine se uma pessoa está ou não no espectro.
Em algumas meninas, a capacidade de observar e reproduzir determinados padrões sociais pode fazer com que dificuldades de comunicação ou interação sejam menos perceptíveis. Isso pode contribuir para que familiares e professores não identifiquem sinais que mereceriam uma investigação mais aprofundada.
A adolescência pode representar um momento especialmente importante. Conforme aumentam as exigências sociais, acadêmicas e emocionais, estratégias que funcionavam anteriormente podem se tornar mais difíceis de sustentar.
É nesse período que algumas mulheres começam a perceber com maior intensidade o cansaço provocado pelas interações sociais ou passam a apresentar dificuldades que antes conseguiam compensar.
Quando a adaptação passa a exigir energia demais
Um dos aspectos importantes da discussão sobre o masking é entender que o comportamento observado externamente nem sempre revela o esforço necessário para mantê-lo.
Depois de um dia de aulas, trabalho, reuniões ou compromissos sociais, algumas mulheres podem sentir uma necessidade intensa de ficar sozinhas e reduzir estímulos.
Essa exaustão pode ser confundida com timidez, falta de interesse ou simplesmente com uma preferência por ficar em casa. Por isso, compreender o contexto e a frequência desses episódios é importante.
A camuflagem prolongada também pode estar associada a maior desgaste emocional. Ansiedade, baixa autoestima, sensação de inadequação e sintomas depressivos podem levar a pessoa a procurar atendimento antes mesmo que o autismo seja considerado.
Isso significa que, em alguns casos, a investigação começa pela consequência e não pela causa.
Saúde mental merece atenção
O diagnóstico tardio não significa necessariamente que a pessoa tenha passado toda a vida sem apresentar características do autismo. Em algumas situações, significa que essas características não foram reconhecidas anteriormente ou foram interpretadas de outra maneira.
Por isso, sintomas relacionados à saúde mental merecem ser analisados dentro de um contexto mais amplo.
Quando uma mulher apresenta ansiedade, depressão, exaustão frequente após situações sociais ou dificuldades persistentes de adaptação, pode ser importante investigar sua história desde a infância, seus padrões de comportamento e a forma como ela vivencia as relações sociais.
O objetivo não é transformar qualquer dificuldade de socialização em sinal de autismo, mas evitar que possibilidades relevantes sejam descartadas apenas porque a pessoa consegue manter uma aparência de normalidade.
O diagnóstico não deve se basear apenas no comportamento observado
Uma das principais questões levantadas pelo debate sobre o autismo feminino é a necessidade de olhar além daquilo que é visível.
Uma mulher pode conversar, estudar, trabalhar, manter relacionamentos e participar de atividades sociais e, ainda assim, enfrentar dificuldades relacionadas ao TEA.
Por isso, uma avaliação adequada considera a história de desenvolvimento da pessoa, suas características individuais e o impacto que determinadas situações provocam em sua rotina.
O diagnóstico de autismo deve ser realizado por profissionais capacitados, a partir de uma avaliação clínica individualizada. Não existe teste isolado ou característica única capaz de confirmar o transtorno.
Informação ajuda a ampliar o olhar
Falar sobre camuflagem social não significa afirmar que toda mulher que apresenta cansaço social, ansiedade ou necessidade de isolamento esteja no espectro autista.
A proposta é ampliar a compreensão sobre a diversidade de manifestações do TEA e lembrar que algumas pessoas desenvolvem estratégias sofisticadas para lidar com situações que outras vivenciam de maneira mais espontânea.
Quando familiares, educadores e profissionais de saúde conseguem olhar para além da aparência e ouvir a experiência da própria pessoa, aumentam as possibilidades de reconhecer necessidades que permaneceram invisíveis durante muito tempo.
No caso das mulheres, essa escuta pode ser especialmente importante para compreender não apenas como elas se comportam, mas também quanto esforço é necessário para sustentar determinados comportamentos.
Interpretação GT
O diagnóstico do autismo não deve ser determinado pela aparência de uma pessoa, pela sua capacidade de conversar ou pela maneira como ela se comporta em público.
Cada pessoa apresenta características próprias, e algumas mulheres podem desenvolver estratégias de adaptação que tornam determinados sinais menos evidentes.
Por isso, informação, escuta e avaliação profissional são fundamentais. Reconhecer essas diferenças não significa procurar autismo em qualquer comportamento, mas ampliar o olhar para que ninguém deixe de receber uma avaliação adequada simplesmente porque aprendeu a esconder o próprio desconforto.


