Biscoitos, bebidas açucaradas, farinhas instantâneas, embutidos e outros produtos industrializados fazem parte da rotina de muitas famílias; especialistas alertam para a importância de reduzir o consumo desde os primeiros anos
Uma parcela significativa da alimentação das crianças brasileiras é formada por alimentos ultraprocessados. Segundo dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019), 24,7% da energia consumida por crianças de até cinco anos no Brasil vinha desses produtos.
O levantamento foi realizado entre fevereiro de 2019 e março de 2020 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com participação de 14.505 crianças menores de cinco anos, em 123 municípios brasileiros e no Distrito Federal.
O percentual aumenta conforme a idade. Entre crianças de 2 a 5 anos, os ultraprocessados representaram 30,4% da alimentação. Entre aquelas de 6 meses a 2 anos, a participação chegou a 20,5%.
Para os menores de dois anos, a recomendação oficial é ainda mais direta: o Ministério da Saúde orienta não oferecer alimentos ultraprocessados nessa fase e priorizar alimentos in natura ou minimamente processados.
Quais produtos aparecem com mais frequência?
O relatório do ENANI-2019 mostra que os biscoitos e bolachas doces e salgados estão entre os ultraprocessados mais consumidos pelas crianças. Também aparecem com destaque as farinhas instantâneas, chocolates, sorvetes, gelatinas e bebidas lácteas, como achocolatados e alguns produtos adoçados.
O próprio Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos cita entre os ultraprocessados que devem ser evitados produtos como biscoitos, bolachas, bisnaguinhas, pães industrializados, nuggets, salsicha, salgadinhos, macarrão instantâneo, bebidas açucaradas e cereais com açúcar.
1. Biscoitos e bolachas
Mesmo aqueles apresentados como opções simples para o lanche podem ser ultraprocessados e conter combinações de farinha refinada, açúcar, gordura, sal e aditivos.
Biscoitos doces, recheados e salgados aparecem entre os produtos que o Ministério da Saúde recomenda evitar na alimentação infantil, especialmente nos primeiros anos de vida.
2. Bisnaguinhas e outros pães industrializados
A praticidade faz com que a bisnaguinha seja presença frequente nas lancheiras. Porém, versões industrializadas entram na categoria dos ultraprocessados e podem apresentar diferentes aditivos e quantidades relevantes de sal, açúcar e gordura.
A recomendação oficial é priorizar alimentos menos processados e variar as opções oferecidas à criança.
3. Farinhas instantâneas e cereais açucarados
Farinhas instantâneas utilizadas no preparo de mingaus e cereais matinais açucarados também aparecem entre os produtos que merecem atenção.
O problema não está apenas no açúcar isoladamente, mas no fato de esses produtos poderem ocupar o espaço de alimentos mais nutritivos e contribuir para a formação de um padrão alimentar baseado em produtos industrializados.
4. Bebidas açucaradas e produtos lácteos adoçados
Achocolatados, bebidas com sabor, refrigerantes, refrescos e outros produtos adoçados podem fornecer grandes quantidades de açúcar sem oferecer a mesma variedade de nutrientes encontrada em alimentos naturais.
Para crianças, o Ministério da Saúde orienta que a água seja priorizada e recomenda evitar bebidas adoçadas ultraprocessadas.
5. Nuggets e outros empanados industrializados
Os empanados de frango do tipo nugget também estão na relação de ultraprocessados citados pelo Guia Alimentar.
Além da composição do produto, a preocupação está na frequência. Quando esses alimentos substituem repetidamente preparações feitas com carnes, ovos, feijão, legumes e outros alimentos minimamente processados, a variedade da alimentação tende a diminuir.
6. Salsicha e outros embutidos
A salsicha merece atenção especial por ser uma carne processada. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), produtos como salsicha, presunto, linguiça, bacon, salame e mortadela podem aumentar o risco de câncer, e seu consumo deve ser evitado. Conservantes utilizados nesses produtos, como nitritos e nitratos, estão entre os fatores relacionados a esse risco.
Isso não significa que o consumo ocasional de um determinado produto provoque câncer. O alerta está relacionado ao consumo de carnes processadas como parte habitual da alimentação.
Por que a infância exige atenção especial?
Os primeiros anos de vida são uma fase importante para a formação dos hábitos alimentares. O Ministério da Saúde destaca que as práticas alimentares adotadas nos primeiros dois anos podem influenciar a saúde e o desenvolvimento da criança e repercutir ao longo da vida.
Além disso, quando produtos muito doces, salgados ou com sabores intensos passam a ocupar espaço frequente na alimentação, eles podem dificultar a aceitação de alimentos com sabores mais naturais.
Por isso, frutas, verduras, legumes, feijão, carnes, ovos e preparações feitas em casa devem ocupar espaço central nas refeições, de acordo com a idade e as necessidades da criança.
O exemplo começa dentro de casa
A alimentação infantil não depende apenas do que é colocado no prato da criança. O ambiente familiar também influencia suas escolhas.
Quando os adultos têm o hábito de consumir frutas, verduras, legumes e refeições preparadas em casa, esses alimentos passam a fazer parte do cotidiano da criança. O Guia Alimentar também recomenda que a família, sempre que possível, faça a mesma comida para todos, utilizando alimentos in natura ou minimamente processados.
A ideia não é transformar a alimentação em uma sequência de proibições, mas construir hábitos mais saudáveis desde cedo.
Menos pacote, mais comida de verdade
A orientação dos especialistas e dos guias oficiais pode ser resumida em uma mudança de prioridade: quanto mais a alimentação infantil for baseada em alimentos in natura ou minimamente processados, melhor.
Frutas, legumes, verduras, feijão, arroz, ovos, carnes, raízes e outros alimentos tradicionais podem formar refeições variadas e nutritivas, enquanto os ultraprocessados devem ter seu consumo reduzido e, no caso das crianças menores de dois anos, ser evitados.
Mais do que escolher um produto específico como o “pior”, o principal alerta é observar a frequência com que os ultraprocessados aparecem na rotina e se eles estão substituindo a comida de verdade.


