Pesquisa realizada na Inglaterra identificou uma associação entre a frequência a cinemas, museus e teatros e indicadores de um organismo fisiologicamente mais jovem. Especialistas destacam possíveis benefícios para a mente, o bem-estar e a convivência social.
Cultura também pode fazer parte de uma vida mais saudável
Frequentar cinemas, museus, galerias de arte, teatros e concertos pode estar relacionado a um envelhecimento fisiológico mais saudável. É o que indica um estudo realizado com 1.899 adultos na Inglaterra, que identificou uma associação entre maior participação em atividades culturais e uma idade fisiológica menor.
Publicado no Journal of Epidemiology and Community Health, o trabalho encontrou uma diferença estimada de aproximadamente 1,2 ano entre os participantes com os menores e os maiores níveis de envolvimento cultural.
Os pesquisadores utilizaram dados do English Longitudinal Study of Ageing (ELSA), levantamento que acompanha adultos com 50 anos ou mais. A frequência com que os participantes compareciam a atividades culturais foi transformada em uma escala de zero a 15 pontos. Quanto maior a pontuação, maior o envolvimento registrado.
Para avaliar o envelhecimento do organismo, os pesquisadores consideraram dez indicadores de saúde, incluindo pressão arterial, capacidade pulmonar, colesterol LDL, hemoglobina glicada, índice de massa corporal (IMC), força das mãos e velocidade da caminhada.
Essas medidas ajudam a compreender as condições de diferentes sistemas do corpo e permitem estimar a idade fisiológica, que não deve ser confundida com a idade cronológica.
Enquanto a idade cronológica corresponde ao tempo transcorrido desde o nascimento, a idade fisiológica procura representar as condições do organismo e como ele está envelhecendo. Pessoas com a mesma idade podem apresentar características físicas e metabólicas bastante diferentes.
Estímulos para o cérebro e oportunidades de convivência
Uma possível explicação para a associação encontrada está no conjunto de experiências envolvidas em uma atividade cultural.
Planejar um passeio, organizar o deslocamento, cumprir compromissos e interagir com outras pessoas são situações que podem estimular diferentes capacidades cognitivas e favorecer a manutenção dos vínculos sociais.
Além disso, atividades como apreciar uma música, acompanhar uma peça teatral ou observar uma exposição podem envolver atenção, memória, interpretação e emoções.
A médica Sley Tanigawa Guimarães, coordenadora da pós-graduação em medicina do estilo de vida da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, destaca que a idade fisiológica pode ser influenciada por diversos fatores, como genética, hábitos, história de vida e condições sociais.
O envolvimento cultural também pode contribuir para o bem-estar emocional. Pesquisas anteriores mencionadas pelos autores associaram a participação em atividades culturais a aspectos como menor solidão, melhor saúde mental e hábitos de vida mais saudáveis.
Esses fatores são relevantes porque a saúde durante o envelhecimento não depende apenas da ausência de doenças, mas também da preservação da autonomia, da capacidade física, das relações sociais e do equilíbrio emocional.
O que os resultados realmente significam?
No estudo, cada ponto adicional na escala de participação cultural esteve associado, em média, a uma idade fisiológica 0,085 ano menor, o equivalente a aproximadamente 31 dias.
No modelo utilizado pelos pesquisadores, os participantes com pontuação zero apresentaram idade fisiológica estimada em 69 anos. Entre aqueles que alcançaram a pontuação máxima, de 15 pontos, a estimativa foi de 67,8 anos.
A associação também apareceu em uma análise que relacionou o envolvimento cultural à idade fisiológica registrada quatro anos depois.
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que o estudo não permite afirmar que frequentar museus, cinemas ou teatros, por si só, faça uma pessoa envelhecer mais devagar.
Isso porque a relação observada pode envolver outros fatores. Pessoas com melhores condições físicas e mentais, por exemplo, podem ter mais disposição, mobilidade e autonomia para sair de casa e participar de atividades culturais.
Portanto, os dados apontam uma associação que merece ser investigada, mas não comprovam uma relação direta de causa e efeito.
Cultura não precisa ser cara para fazer parte da rotina
Manter uma vida cultural ativa não significa necessariamente gastar dinheiro com ingressos ou frequentar grandes espetáculos.
Ler um livro, ouvir música com atenção, dançar, assistir a um filme, participar de grupos comunitários ou aproveitar eventos gratuitos são algumas das possibilidades para incorporar experiências culturais ao cotidiano.
O mais importante é encontrar atividades que despertem interesse, proporcionem prazer e, quando possível, favoreçam o contato com outras pessoas.
A cultura pode representar uma oportunidade de aprendizado, expressão, convivência e descoberta em diferentes fases da vida. Embora não seja uma garantia de envelhecimento mais lento, sua presença na rotina pode contribuir para uma vida mais participativa e enriquecedora.
Cuidar da saúde também envolve cultivar interesses, manter a mente em atividade e encontrar motivos para continuar aprendendo e compartilhando experiências.


