Psicóloga destaca que a troca de figurinhas fortalece vínculos, estimula encontros presenciais e combate o sentimento de solidão entre os jovens
Em tempos dominados pelas telas e pelas relações virtuais, um hábito simples e tradicional volta a ganhar força entre crianças e adolescentes: completar o álbum da Copa do Mundo. Mais do que colecionar figurinhas, a atividade tem promovido encontros presenciais, conversas e experiências sociais consideradas importantes para a saúde mental dos jovens.
Segundo a psicóloga e doutora em psicanálise Carolina Nassau Ribeiro, a famosa troca de figurinhas vai muito além da paixão pelo futebol. Para ela, o fenômeno representa pertencimento, convivência e construção de vínculos em uma fase da vida marcada pela busca de identidade.
“Os jovens estão precisando de encontros presenciais e de trocas. O álbum cria quase naturalmente uma estrutura de convivência, metas compartilhadas e reconhecimento dentro de um grupo”, afirma a especialista.
A adolescência é considerada um período decisivo para o desenvolvimento emocional. É justamente nessa fase que muitos jovens começam a construir o próprio senso de identidade fora do ambiente familiar. Por isso, o convívio com amigos e grupos sociais se torna tão importante.
De acordo com Carolina, muitos adolescentes enfrentam atualmente sentimentos de vazio, isolamento e falta de propósito. Em alguns casos, isso aparece em frases aparentemente simples, como o frequente “tanto faz” sobre o futuro. Para a especialista, esse comportamento pode indicar sofrimento emocional e dificuldade de criar laços afetivos consistentes.
Nesse cenário, atividades presenciais como trocar figurinhas acabam funcionando como uma forma espontânea de reconexão social. Além de aproximar os jovens, o hábito também ajuda no desenvolvimento de habilidades emocionais importantes, como negociação, paciência, comunicação, tolerância à frustração e convivência coletiva.
A “geração do quarto”
A psicóloga também chama atenção para o crescimento da chamada “geração do quarto” — jovens extremamente conectados às redes sociais, mas cada vez mais distantes das relações presenciais.
Segundo ela, muitos adolescentes passam horas no ambiente digital, porém encontram dificuldades para manter conversas dentro da própria casa ou desenvolver vínculos fora das telas. Isso pode ampliar sentimentos de solidão e sofrimento emocional.
Nesse contexto, o álbum da Copa surge como um movimento contrário à lógica do isolamento digital, incentivando encontros reais e experiências compartilhadas.
Como os pais podem incentivar conexões presenciais
A especialista orienta que os pais podem estimular essas interações de forma natural, sem transformar o processo em obrigação. Algumas atitudes simples podem fazer diferença:
- Organizar pequenos encontros para troca de figurinhas;
- Levar os filhos às bancas para comprar pacotinhos;
- Permitir que amigos se reúnam em casa;
- Evitar resolver imediatamente todas as “faltas” do álbum;
- Incentivar que os próprios jovens busquem soluções e negociações.
Segundo Carolina, lidar com a espera, com a incompletude e com pequenas frustrações também faz parte do amadurecimento emocional.
Muito além do futebol
Mesmo para quem não acompanha futebol, o álbum da Copa acaba se tornando um fenômeno coletivo capaz de aproximar pessoas. Em uma geração marcada pelo excesso de conexões virtuais e pela falta de convivência presencial, pequenas experiências compartilhadas podem ter um impacto significativo no bem-estar emocional de crianças e adolescentes.
Legenda para imagem no site:
Troca de figurinhas do álbum da Copa estimula convivência presencial e fortalece vínculos entre adolescentes.


