História de “Come-recreio” revela como imaginação e acolhimento familiar podem virar literatura e reflexão sobre a infância
Um monstrinho que “come o recreio”. Foi assim que Joaquim, de apenas 12 anos, encontrou uma forma criativa de explicar um incômodo que sentia na escola: a sensação de que o tempo para brincar estava desaparecendo.
Morador de Marília (SP), o menino autista transformou essa percepção em uma história sensível e cheia de significado. Com o apoio da mãe, a advogada Angélica Masson, nasceu o livro “Come-recreio”, uma obra infantojuvenil que une imaginação, afeto e reflexão sobre o ritmo acelerado do mundo.
A ideia surgiu quando Joaquim tinha nove anos e começou a observar, com atenção, que o recreio parecia cada vez mais curto. Para dar sentido a isso, criou um personagem: um monstrinho curioso que devora minutos — e cada pedaço de tempo tem até sabor diferente.
Encantada com a riqueza dos detalhes, Angélica passou a registrar as falas do filho e ajudou a transformar a narrativa em livro. O projeto foi inscrito em um edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e acabou selecionado, garantindo a publicação da obra — um reconhecimento que vai além do olhar materno.

Mais do que uma história infantil, “Come-recreio” traz uma reflexão importante: até que ponto a pressa do mundo adulto está invadindo o tempo das crianças?
Na obra, o personagem transita entre um relógio de parede e um ser faminto por minutos, criando uma metáfora potente sobre a infância cronometrada. As ilustrações dão vida à narrativa e ajudam a transportar o leitor para esse universo sensível e, ao mesmo tempo, provocador.
Escrever juntos fortaleceu vínculos
O processo de criação também teve um impacto profundo na relação entre mãe e filho. Segundo Angélica, escrever o livro exigiu escuta, paciência e respeito ao tempo de Joaquim.
Mais do que construir uma história, os dois construíram novas formas de se entender.
O trabalho foi guiado pelo ritmo único do menino, respeitando seu hiperfoco e sua maneira própria de enxergar o mundo — algo que, segundo a mãe, revela o potencial criativo presente na neurodivergência.
Literatura como resistência e inclusão
Apesar de ter passado por um processo de alfabetização mais tardio, Joaquim desenvolveu uma forte conexão com a leitura e a escrita. Para a família, isso carrega um significado maior: ler com calma, interpretar e imaginar também é uma forma de resistência em um mundo acelerado.
O lançamento do livro aconteceu em fevereiro de 2026, na Biblioteca Municipal de Marília, com atividades voltadas ao público infantil — reforçando o papel da literatura como ferramenta de inclusão, expressão e pertencimento.

Além disso, a história também destaca a importância da rede de apoio entre famílias de crianças neurodivergentes, mostrando que compartilhar experiências pode transformar desafios em conquistas coletivas.
Quando a imaginação vira ponte para o mundo
A história de Joaquim vai além de um livro. Ela mostra que, quando há acolhimento e escuta, a imaginação infantil pode se transformar em algo poderoso: uma ponte entre sentimentos, vivências e o mundo ao redor.
E talvez o maior ensinamento venha justamente do “monstrinho”: em tempos acelerados, defender o tempo de ser criança pode ser um dos atos mais importantes — e necessários — da atualidade.


