Mesmo com séculos de história, avanços tecnológicos e diplomacia internacional, a humanidade segue incapaz de escrever um único ano inteiro de paz.
A humanidade aprendeu cedo a registrar sua própria trajetória. Gravamos histórias em pedras, papiros, livros, jornais e, mais recentemente, em bancos de dados digitais capazes de catalogar praticamente tudo o que acontece no planeta. Ainda assim, entre tantos avanços, há uma ausência difícil de ignorar: não existe registro confiável de um único ano inteiramente livre de guerras ou conflitos armados em todo o mundo.
Essa constatação não depende de interpretações subjetivas. Centros internacionais de pesquisa, como o Uppsala Conflict Data Program (UCDP), da Suécia, e o Instituto de Pesquisa da Paz de Oslo (PRIO), mantêm levantamentos detalhados sobre conflitos desde o início do século XX. Os dados mostram que, mesmo nos períodos considerados mais estáveis, sempre houve ao menos um conflito ativo em alguma região do planeta.
Antes desse período, quando os registros eram menos sistemáticos, a historiografia aponta um padrão semelhante. Na Antiguidade, guerras entre cidades-estado e impérios eram frequentes e vistas como parte natural da organização social. Na Idade Média, disputas religiosas, dinásticas e territoriais moldaram fronteiras e sociedades inteiras. Já na era moderna, o colonialismo, as revoluções e as disputas econômicas globais passaram a ocupar esse papel.
Nem mesmo os chamados períodos de “paz” escapam dessa lógica. A Pax Romana, frequentemente citada como exemplo de estabilidade, foi sustentada por campanhas militares constantes nas fronteiras do Império. A Pax Britannica, no século XIX, coincidiu com conflitos coloniais intensos fora da Europa. Em ambos os casos, a paz existiu para alguns — e a guerra continuou para muitos outros.
No século XX, marcado por duas guerras mundiais, a criação de organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) representou uma tentativa inédita de conter conflitos por meio da diplomacia. Houve avanços importantes, mas eles não foram suficientes para eliminar guerras civis, confrontos regionais e disputas prolongadas que atravessam décadas.
Já no século XXI, apesar do progresso tecnológico, do aumento do acesso à informação e da ampliação do debate sobre direitos humanos, os conflitos não desapareceram. Eles se tornaram mais fragmentados, muitas vezes menos visíveis, mas igualmente persistentes. Em vez de grandes guerras globais, o mundo passou a conviver com conflitos contínuos, espalhados e normalizados.
Diante desse cenário, a pergunta deixa de ser apenas histórica e se torna profundamente humana: por que ainda não conseguimos viver um único ano inteiro sem guerra?
Especialistas apontam múltiplos fatores — disputas por recursos, desigualdade social, interesses econômicos, nacionalismos, falhas diplomáticas e a dificuldade histórica de lidar com diferenças culturais, políticas e religiosas. Mas talvez a resposta mais desconfortável esteja no fato de que a guerra, ao longo do tempo, deixou de ser exceção e passou a ser tratada como ruído de fundo da civilização.
A maior tragédia pode não ser apenas a existência constante dos conflitos, mas a capacidade humana de se adaptar a eles, de aceitá-los como algo distante, inevitável ou “parte do mundo”.
Refletir sobre isso não é um exercício de pessimismo. É um convite à consciência. A história mostra que guerras não surgem de forma repentina — elas são construídas aos poucos, normalizadas por discursos, alimentadas por desigualdades e sustentadas por silêncios coletivos.
Enquanto não formos capazes de transformar diferenças em convivência e poder em responsabilidade compartilhada, a pergunta seguirá sem resposta. E talvez o primeiro passo para um futuro diferente seja justamente este: não parar de questionar por que ainda não conseguimos viver um ano inteiro de paz.


