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Polilaminina: esperança da ciência brasileira para lesões na medula ainda precisa passar por testes decisivos

Nova substância desenvolvida por pesquisadores da UFRJ começa fase inicial de ensaios clínicos e pode abrir caminho para recuperar movimentos em pacientes com paralisia

Uma descoberta da ciência brasileira tem despertado esperança entre pesquisadores e pacientes que convivem com lesões na medula espinhal. A substância chamada polilaminina, desenvolvida por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a farmacêutica Cristália, pode ajudar na regeneração das conexões nervosas rompidas após acidentes graves.

Apesar do entusiasmo, especialistas alertam: ainda é cedo para afirmar que o tratamento é capaz de devolver os movimentos a pessoas com paralisia. A substância está apenas iniciando a fase 1 dos ensaios clínicos, etapa fundamental para verificar se o tratamento é seguro em humanos.

Uma descoberta que começou por acaso

A polilaminina foi descoberta pela bióloga Tatiana Sampaio Coelho enquanto ela estudava a laminina, uma proteína presente em diversas estruturas do corpo humano.

Durante um experimento em laboratório, a pesquisadora percebeu que as moléculas de laminina não se separavam como esperado. Em vez disso, elas se uniam formando uma espécie de rede molecular — estrutura que recebeu o nome de polilaminina.

Esse arranjo chamou atenção porque proteínas semelhantes ajudam a guiar o crescimento dos axônios, extensões dos neurônios responsáveis por transmitir sinais entre o cérebro e o restante do corpo.

Quando ocorre uma lesão na medula espinhal, esses axônios são rompidos, interrompendo a comunicação entre o cérebro e os músculos. É justamente essa interrupção que provoca a paralisia.

A hipótese dos cientistas é que a polilaminina possa servir como uma nova base para o crescimento dessas estruturas nervosas, permitindo que os sinais voltem a circular pelo corpo.

Resultados iniciais trouxeram sinais de esperança

Antes de chegar aos testes em humanos, a substância passou por anos de experimentos em laboratório e em animais — etapa conhecida como fase pré-clínica.

Entre 2016 e 2021, os pesquisadores realizaram um estudo piloto com oito pacientes que sofreram lesões graves na medula após acidentes.

Cinco deles receberam a substância associada à cirurgia de descompressão da coluna, procedimento comum nesses casos.

Os resultados mostraram que esses pacientes apresentaram algum grau de recuperação motora, medido pela escala internacional AIS, usada para avaliar lesões medulares.

  • Quatro pacientes passaram do nível A (lesão completa) para C, recuperando parcialmente movimentos e sensibilidade.
  • Um paciente evoluiu para o nível D, com funções motoras quase normais.

Entre os casos mais conhecidos está o de Bruno Drummond de Freitas, que ficou tetraplégico após fraturar a coluna cervical em 2018.

Semanas após o procedimento, ele conseguiu mover o dedão do pé — um pequeno movimento que indicava que os sinais do cérebro estavam novamente atravessando a região lesionada.

Depois de anos de fisioterapia intensiva, Bruno recuperou a capacidade de andar e hoje apresenta apenas pequenas limitações nas mãos.

Por que ainda não é possível falar em cura

Apesar dos resultados promissores, os cientistas ressaltam que os dados ainda não são suficientes para comprovar a eficácia da polilaminina.

Estudos médicos mostram que até 15% dos pacientes com lesões consideradas completas podem recuperar movimentos naturalmente, sem um tratamento experimental.

Além disso, diagnósticos iniciais podem ser influenciados por fatores como inflamação e inchaço na região da medula logo após o acidente.

Por isso, a ciência exige um processo rigoroso de testes antes que qualquer novo tratamento seja aprovado.

As três fases de testes em humanos

Os ensaios clínicos geralmente seguem três etapas principais:

Fase 1
Avalia se o tratamento é seguro e se o organismo humano tolera a substância.

Fase 2
Amplia o número de voluntários e testa diferentes doses para verificar sinais de eficácia.

Fase 3
Envolve centenas de pacientes e compara o novo tratamento com as terapias já existentes.

No caso da polilaminina, a fase 1 deve começar ainda este mês com cinco pacientes voluntários que sofreram lesão medular recente.

O procedimento será realizado no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Caminho longo, mas promissor

Se os resultados forem positivos, os testes seguintes poderão envolver um número maior de participantes e diferentes centros médicos.

Mesmo com o avanço das pesquisas, especialistas reforçam que o rigor científico é essencial para garantir segurança aos pacientes.

Caso a eficácia da polilaminina seja confirmada, a descoberta poderá representar uma das maiores contribuições da ciência brasileira para a medicina neurológica, oferecendo novas perspectivas para milhões de pessoas que convivem com sequelas de lesões na medula.

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