Decisão tomada no século 19 transformou crise hídrica em um dos maiores exemplos de recuperação ambiental em área urbana
Cercada por bairros densamente ocupados, a maior floresta urbana do mundo desafia a ideia de que grandes áreas verdes em cidades surgem apenas por preservação espontânea. No Rio de Janeiro, a Floresta da Tijuca é resultado de uma ação planejada do poder público ainda no século 19, quando a cidade enfrentava uma grave crise ambiental ligada ao abastecimento de água.
Hoje integrada ao Parque Nacional da Tijuca, essa imensa área verde não apenas protege nascentes e abriga biodiversidade da Mata Atlântica, como também simboliza uma das mais bem-sucedidas experiências de reflorestamento urbano do planeta.
Crise ambiental levou ao maior reflorestamento urbano da história
Durante o século 19, o avanço do cultivo de café devastou grande parte da vegetação original da região da Tijuca. A consequência foi imediata: as nascentes secaram, o solo perdeu capacidade de retenção de água e o fornecimento hídrico da então capital do Império tornou-se instável.

Diante desse cenário, em 1861, Dom Pedro II decretou as florestas da Tijuca e das Paineiras como áreas protetoras. A decisão permitiu a desapropriação de fazendas e abriu caminho para um ambicioso plano de recomposição da Mata Atlântica em plena área urbana — iniciativa que, décadas depois, daria origem à maior floresta urbana do mundo.
Trabalho humano por trás da reconstrução da floresta
A coordenação do reflorestamento ficou a cargo do major Manuel Gomes Archer. Ao lado de 11 pessoas negras escravizadas, feitores e trabalhadores assalariados, Archer conduziu o plantio de mais de 100 mil árvores ao longo de cerca de 13 anos.

A escolha por espécies nativas foi fundamental para o sucesso do projeto, garantindo adaptação ao relevo, ao solo e ao regime de chuvas da região. Esse esforço coletivo reconstruiu ecossistemas inteiros e devolveu vida às nascentes responsáveis pelo abastecimento da cidade.
Planejamento paisagístico e uso público
Após a saída de Archer, o projeto ganhou novos contornos sob a liderança do Barão d’Escragnolle. Com a colaboração do paisagista francês Auguste Glaziou, a floresta passou a incorporar caminhos, fontes, lagos, mirantes e áreas de lazer, ampliando sua função social sem comprometer a conservação ambiental.
Muitas dessas estruturas permanecem até hoje, preservando o desenho paisagístico que integrou natureza, lazer e planejamento urbano.
Biodiversidade em plena cidade
Atualmente, a Floresta da Tijuca ocupa cerca de 4.200 hectares e abriga mais de 1.600 espécies de plantas e aproximadamente 300 espécies de animais. Entre eles estão preguiças, macacos-prego, quatis, répteis e uma grande diversidade de aves típicas da Mata Atlântica.

As cachoeiras da Floresta da Tijuca são parte do maior reflorestamento urbano do mundo e simbolizam a recuperação das nascentes que garantem vida, equilíbrio ambiental e respiro em plena área urbana do Rio de Janeiro.
O parque é dividido em setores que articulam conservação, educação ambiental e visitação pública. Trilhas, cachoeiras, grutas e pontos icônicos como o Corcovado, o Parque Lage e a Pedra da Gávea mostram, na prática, como cidade e natureza podem coexistir.

Um legado que atravessa séculos
Mais de um século após o início do reflorestamento, a maior floresta urbana do mundo mantém sua função original: proteger recursos naturais, melhorar a qualidade ambiental do Rio de Janeiro e provar que decisões públicas bem planejadas constroem legados duradouros.
A Floresta da Tijuca não é apenas um patrimônio natural — é uma lição histórica sobre planejamento, responsabilidade ambiental e futuro sustentável.


