Programa inédito concede tempo remunerado e incentivo financeiro para fortalecer vínculos sociais no trabalho, em meio a uma estratégia nacional contra a solidão.
Em um movimento que desafia a lógica tradicional do ambiente corporativo, funcionários de uma grande rede de farmácias da Suécia estão sendo pagos para… fazer algo simples e essencial: cuidar das amizades.
A iniciativa faz parte do projeto piloto Friendcare, criado pelo grupo farmacêutico Apotek Hjärtat, que passou a oferecer aos colaboradores 15 minutos semanais — ou uma hora por mês — de licença remunerada para fortalecer relações sociais durante o horário de trabalho. O programa começou em abril de 2025 e integra uma estratégia mais ampla do país para enfrentar a solidão, hoje reconhecida como um problema de saúde pública.
Uma das participantes é Yasmine Lindberg, de 45 anos, funcionária de uma loja da rede na cidade litorânea de Kalmar. Mãe de adolescentes e separada há quatro anos, ela relata que o cansaço da rotina e as mudanças na vida pessoal acabaram reduzindo seus contatos sociais.

“Quando chego em casa, estou exausta. Não tenho tempo nem energia para encontrar meus amigos”, conta Yasmine.
Com o Friendcare, ela passou a ter um espaço formal — e legitimado pela empresa — para ligar, trocar mensagens ou até encontrar alguém pessoalmente. Além do tempo, os participantes receberam 1.000 coroas suecas (cerca de R$ 600) para custear atividades voltadas ao estímulo das amizades ao longo de um ano.
O projeto também incluiu treinamentos online sobre como reconhecer e lidar com a solidão, oferecidos não só aos voluntários do programa piloto, mas aos cerca de 4 mil funcionários da Apotek Hjärtat em todo o país.
Segundo a CEO da empresa, Monica Magnusson, a ideia surgiu a partir de parcerias anteriores com instituições de saúde mental, que mostraram como conversas breves, porém significativas, já são capazes de reduzir a sensação de isolamento.

“Queríamos testar se reservar um pequeno tempo para a amizade poderia impactar o bem-estar dos nossos funcionários”, explica.
O nome Friendcare é um jogo de palavras com “friskvård”, benefício comum na Suécia que oferece incentivos financeiros para atividades físicas e bem-estar. A diferença é o foco: não no corpo, mas nos relacionamentos humanos.
Solidão como questão de saúde pública
A iniciativa empresarial surge em um momento estratégico. Em julho, o governo sueco lançou sua primeira estratégia nacional para combater a solidão, liderada pela Agência de Saúde Pública. O plano prevê maior colaboração entre empresas, municípios, pesquisadores e organizações civis.
O ministro da Saúde, Jakob Forssmed, alerta que a solidão está associada a riscos maiores de doenças cardíacas, AVCs e mortalidade precoce, além de gerar impactos econômicos com afastamentos e custos médicos.
Dados recentes mostram que cerca de 14% da população sueca se sente solitária em parte ou na maior parte do tempo. Um levantamento oficial de 2024 revelou ainda que 8% dos adultos não têm sequer um amigo próximo.
Para o psicólogo sueco Daniel Ek, autor do livro The Power of Friendship, fatores culturais, o clima rigoroso e o alto número de pessoas que vivem sozinhas contribuem para o problema.
“Valorizamos muito o espaço pessoal e temos dificuldade em quebrar o gelo”, afirma.
Mais de 40% das residências na Suécia são ocupadas por apenas uma pessoa, grupo que apresenta índices mais elevados de solidão, segundo dados oficiais.
Resultados iniciais e interesse de outras empresas
Embora ainda esteja em fase experimental, o Friendcare já apresenta sinais positivos. Pesquisas internas indicam maior satisfação com a vida entre os participantes. O projeto despertou o interesse de outras grandes marcas nórdicas, como Ikea, redes hoteleiras e cooperativas habitacionais, reunidas em uma aliança chamada “Juntos contra a solidão involuntária”.

Para Magnusson, o diferencial está na cooperação.
“É uma forma diferente de trabalhar coletivamente, deixando a concorrência de lado para enfrentar um problema comum.”
Especialistas avaliam que iniciativas assim ajudam a reduzir barreiras sociais, mas reforçam que o combate à solidão também exige mudanças estruturais, como acesso a espaços culturais, redução das desigualdades e reflexão sobre o uso excessivo de tecnologias digitais.
Ainda assim, a experiência sueca levanta uma pergunta poderosa para o futuro do trabalho: e se cuidar das amizades fosse tão importante quanto cumprir metas?


