Google search engine
domingo, fevereiro 1, 2026
Google search engine
InícioTurismo | Cultura | HistóriaNatividade: o berço histórico do Tocantins que preserva quase 300 anos de...

Natividade: o berço histórico do Tocantins que preserva quase 300 anos de memória

Cidade colonial do sudeste tocantinense reúne patrimônio tombado, festas tradicionais, gastronomia típica e belezas naturais que atravessam séculos

Fundada em 1734, Natividade é considerada a “Mãe do Tocantins”. Localizada no sudeste do estado, a cerca de 229 km de Palmas, a cidade nasceu durante o ciclo do ouro, quando bandeirantes ocuparam o antigo norte de Goiás entre 1724 e 1734, enfrentando a resistência indígena e dando origem ao primeiro grande povoamento da região.

As relações entre colonizadores, povos originários, escravizados, missionários e criadores de gado moldaram um dos mais importantes sítios históricos do Brasil Central. Hoje, Natividade preserva cerca de 250 a 260 imóveis coloniais, ruas estreitas, muros de pedra erguidos por mãos escravizadas e igrejas centenárias, formando um conjunto arquitetônico tombado pelo IPHAN desde 1987, reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Natividade, construída em 1759, é um dos maiores símbolos da fé e da história do Tocantins. No altar, a imagem da padroeira do estado guarda a memória do surgimento de Natividade e da formação cultural da região.

Entre os principais símbolos religiosos estão a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Natividade, construída em 1759, e a Igreja de São Benedito. No altar da Matriz está a imagem da padroeira do Tocantins, que chegou pelo Rio Tocantins e foi levada até o antigo arraial pelos próprios escravos — um dos episódios mais emblemáticos da fé local.

Ruínas da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos: fé, resistência e memória negra em Natividade (TO).

Outro marco histórico e social é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída em pedra canga pelos negros escravizados. A obra, iniciada no século XVIII e interrompida por volta de 1817, permanece inacabada até hoje. Suas ruínas tornaram-se um dos principais cartões-postais de Natividade e uma das mais fortes referências da presença e resistência negra no coração do Brasil.

Cultura viva e identidade quilombola

A herança africana também está presente no folclore, nas manifestações populares e nas festas religiosas, com destaque para a Festa do Divino Espírito Santo, considerada a principal celebração cultural da cidade. O evento mistura tradições portuguesas, africanas e sertanejas, fortalecendo o sentimento de pertencimento e identidade da população local.

Festa do Divino Espírito Santo, em Natividade (TO): manifestação centenária que reúne fé, cultura e tradição, mantendo vivas as raízes portuguesas, africanas e sertanejas que moldam a identidade do Tocantins.

Outro ponto singular é o Centro Bom Jesus de Nazaré (Sítio da Jacuba), conhecido pelas esculturas feitas em pedra. O local reúne figuras humanas, magos, pássaros gigantes, formas geométricas e estelares. Considerado místico por moradores e visitantes, o sítio abriga obras criadas a partir das “visões” de Dona Romana, personagem popular da cidade.

Ouro, joias e sabores do Cerrado

Durante o auge do ciclo do ouro, Natividade chegou a abrigar cerca de 40 mil escravizados, e o metal precioso era transportado em lombos de burros, nas chamadas “bruacas de ouro”, até Salvador (BA). Ainda hoje, o município mantém minas de ouro em atividade e é referência na produção de joias artesanais.

Os ourives locais preservam a técnica portuguesa da filigrana, feita com finíssimos fios de ouro, transformando a tradição em identidade cultural e fonte de renda. Na gastronomia, o destaque é o tradicional biscoito amor-perfeito, assado em forno a lenha, além de doces e licores artesanais produzidos com frutas do Cerrado. O artesanato local utiliza principalmente fibra de buriti e barro.

Natureza, trilhas e cachoeiras

Além do patrimônio histórico, Natividade se destaca pelo ecoturismo. Trilhas, rios, serras e cachoeiras atraem visitantes em busca de aventura e contato com a natureza. No Paraíso das Águas, estão as cachoeiras do Purgatório, do Amor e a famosa Cachoeira do Paraíso, onde a água desaparece em um poço e ressurge em forma de cascata dentro de um cânion.

Cachoeira do Amor, em Natividade (TO): um refúgio de águas cristalinas cercado pela natureza do Cerrado, onde a tranquilidade e a beleza transformam cada visita em experiência inesquecível.

A trilha de 6 km até a Serra de Trindade leva às ruínas do antigo Arraial de São Luiz, povoação original da região, além de proporcionar vistas privilegiadas da fauna e flora do Cerrado tocantinense. Outro ponto bastante visitado é a Praia das Morenas, às margens do Rio Manuel Alves.

Cachoeira do Paraíso, em Natividade (TO): águas que desaparecem entre as rochas e ressurgem em forma de cascata, criando um espetáculo natural único no coração do Cerrado tocantinense.

Importância histórica e reconhecimento nacional

No início do século XIX, entre 1809 e 1823, Natividade dividiu a sede administrativa do Norte goiano com cidades como Paranã (antiga São João da Palma), Cavalcante e Arraias, durante as primeiras tentativas de emancipação do Tocantins. Esse movimento inspirou o nome da capital Palmas, consolidando o estado somente em 1988.

Esse protagonismo histórico levou Natividade a ser eleita uma das “Sete Maravilhas do Brasil”, ao lado de ícones como o Teatro Amazonas, o Centro Histórico de Ouro Preto e o Mercado Ver-o-Peso, reforçando o potencial turístico da Região Norte e ampliando a visibilidade nacional da cidade.

Inserida na Região Turística Serras Gerais, Natividade integra o roteiro histórico-cultural do Tocantins, com acesso facilitado pela TO-050, e segue em processo de restauração de seus monumentos, preservando a memória e fortalecendo o turismo sustentável.

RELATED ARTICLES
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Most Popular

Recent Comments