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HIV: Anvisa aprova lenacapavir, a primeira injeção semestral que previne a infecção em quase 100%

Medicamento inovador aprovado no Brasil pode transformar a prevenção e o tratamento do HIV, mas custo e acesso ainda são desafios

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta semana o lenacapavir, primeiro medicamento injetável de longa duração capaz de prevenir a infecção pelo HIV com eficácia próxima de 100%, segundo estudos clínicos internacionais. Desenvolvido pelo laboratório Gilead Sciences, o fármaco será comercializado com o nome Sunlenca e já havia recebido aval das agências reguladoras dos Estados Unidos e da Europa.

A aprovação representa um marco histórico na resposta ao HIV no Brasil, ao introduzir uma tecnologia inédita que exige apenas duas aplicações por ano, tanto para prevenção quanto para tratamento em casos específicos.

Duas indicações aprovadas pela Anvisa

O lenacapavir foi aprovado para duas finalidades distintas:

  • Profilaxia Pré-Exposição (PrEP): indicada para pessoas que não vivem com HIV, com idade acima de 12 anos, peso superior a 35 kg e teste negativo para o vírus. A aplicação semestral surge como alternativa à PrEP oral diária, disponível no SUS desde 2017.
  • Tratamento do HIV: voltado a pacientes que vivem com o vírus, já passaram por outras terapias e desenvolveram resistência a diferentes classes de antivirais.

Para especialistas, trata-se de um avanço estratégico.
“É um medicamento inovador, com mecanismo de ação totalmente novo, que amplia de forma concreta as opções de prevenção e tratamento disponíveis. Agora, o desafio é garantir acesso e sustentabilidade, especialmente no SUS”, avalia o infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Unesp.

Reconhecimento internacional e recomendação da OMS

Em julho do ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a recomendar o lenacapavir como parte da estratégia de prevenção combinada contra o HIV, que inclui preservativos, testagem regular e uso da PrEP.

Na ocasião, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, classificou a medida como uma ação histórica:

“Enquanto uma vacina contra o HIV continua fora de alcance, o lenacapavir é a melhor alternativa disponível: um antirretroviral de longa duração que demonstrou prevenir quase todas as infecções em pessoas em risco.”

Eficácia comprovada em estudos clínicos

Os resultados que sustentam a aprovação impressionam:

  • Estudo PURPOSE-1: realizado com 5,3 mil mulheres cisgênero na África do Sul e Uganda, registrou zero infecções entre as participantes que receberam o lenacapavir durante quase dois anos.
  • Estudo PURPOSE-2: incluiu 3,3 mil participantes de diferentes gêneros e etnias em 88 centros de pesquisa, incluindo o Brasil. Apenas dois casos de HIV foram registrados entre os usuários do medicamento, contra nove no grupo que utilizou PrEP oral.

Os dados indicam eficácia de até 100% em alguns contextos e superioridade em relação aos comprimidos diários. Ambos os estudos foram publicados na revista científica New England Journal of Medicine (NEJM).

Por que a injeção não é uma vacina?

Apesar de ser uma injeção preventiva, o lenacapavir não é uma vacina. Diferente das vacinas, ele não estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos. Trata-se de um antiviral de ação direta, que bloqueia a replicação do HIV enquanto permanece ativo no organismo.

Isso significa que, ao interromper o uso, a proteção deixa de existir — ao contrário das vacinas, que geram memória imunológica. Atualmente, não há vacina aprovada contra o HIV no mundo.

Preço e acesso: os principais obstáculos

Apesar do potencial revolucionário, o lenacapavir enfrenta um grande desafio: o custo. Nos Estados Unidos, o tratamento anual ultrapassa US$ 28 mil por pessoa, o equivalente a cerca de R$ 150 mil.

No Brasil, ainda não há previsão de preço nem de lançamento comercial. A definição depende da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) e, para eventual oferta gratuita, de avaliação da Conitec e do Ministério da Saúde.

Além do preço, especialistas alertam para desafios logísticos e informacionais, especialmente para populações mais vulneráveis, como pessoas trans, profissionais do sexo e usuários de drogas — justamente quem mais poderia se beneficiar da proteção de longa duração.

Alternativa para pacientes com HIV resistente

Para pacientes com poucas opções terapêuticas, o lenacapavir também se destaca. No estudo CAPELLA, 88% dos participantes com HIV resistente alcançaram supressão viral após 26 semanas, quando o medicamento foi associado a outros antivirais.

Segundo a Gilead, a administração semestral facilita o manejo clínico em casos complexos e amplia as chances de controle da infecção.

Um avanço promissor, mas com desafios pela frente

A aprovação do lenacapavir coloca o Brasil no radar das tecnologias mais avançadas no combate ao HIV. Ainda assim, especialistas destacam que o sucesso dessa inovação dependerá de políticas públicas, negociação de preços e ampliação do acesso à informação.

Enquanto isso, o medicamento surge como uma das ferramentas mais promissoras já desenvolvidas na luta contra o HIV, reforçando que ciência, prevenção e inclusão caminham juntas.

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