Google search engine
sábado, novembro 29, 2025
Google search engine
InícioSaúde | Bem-estarA tendência do “oversharing”: quando abrir a alma nas redes vira risco...

A tendência do “oversharing”: quando abrir a alma nas redes vira risco para a privacidade e para a saúde mental

Compartilhar desabafos e vulnerabilidades pode gerar apoio, mas a superexposição nas redes também alimenta críticas, ansiedade, dependência de validação e deixa rastros digitais difíceis de apagar.

“Fui demitido hoje e não sei o que fazer da minha vida.”
“Acabei de sair da terapia e me sinto destruído.”
“Aqui estão as coisas que tenho vergonha de admitir.”

Frases como essas, acompanhadas de vídeos chorando no TikTok ou no Instagram, ou de longos desabafos em outras plataformas, se tornaram cada vez mais comuns. O que antes ficava guardado em um diário, em uma sessão de terapia ou em uma conversa com um amigo íntimo agora é exibido para milhares — às vezes milhões — de pessoas.

Esse comportamento tem nome: oversharing, ou superexposição. É a tendência de compartilhar em excesso detalhes da própria vida privada nas redes sociais, especialmente conteúdos emocionais, íntimos e vulneráveis. Em um cenário digital que recompensa a autenticidade e a “vida real sem filtros”, o oversharing cresce embalado pela promessa de empatia, validação e companhia virtual. Mas, no meio do caminho, a privacidade e a saúde mental podem pagar a conta.

Da hashtag à confissão pública

No TikTok, uma tendência que resume bem esse fenômeno ficou conhecida como “as redes sociais são falsas, aqui estão algumas coisas que me envergonho de admitir”, ligada à hashtag #socialmediaisfake. Usuários, muitos deles da Geração Z, gravam vídeos expondo inseguranças profundas: medos sobre o futuro profissional, culpa por não se sentir produtivo, crises de autoestima e relatos de ansiedade.

O conteúdo costuma despertar identificação e solidariedade — muita gente se vê ali e sente alívio por perceber que não está sozinha. Ao mesmo tempo, essa avalanche de vulnerabilidades públicas também abre espaço para comparações dolorosas: “se todo mundo está expondo suas dores e eu não consigo, será que estou sendo falso?”, “o sofrimento do outro parece mais legítimo que o meu?”.

Em outras redes, como fóruns e comunidades anônimas, tópicos começam com frases do tipo: “Preciso contar isso porque não aguento mais”. A partir daí, surgem relatos de términos, traições, solidão, esgotamento emocional e conflitos familiares. Em resposta, aparecem conselhos, mensagens de apoio e uma sensação de “tribo” digital — pessoas que, mesmo sem se conhecer, se acolhem.

Sharenting: quando a superexposição atinge quem não pode escolher

Dentro de casa, o oversharing assume outra forma: o sharenting, a prática de mães, pais ou responsáveis que compartilham detalhes íntimos da vida dos filhos — desde crises de birra até situações constrangedoras na escola. Muitas vezes a intenção é positiva: registrar momentos, desabafar sobre a rotina, buscar apoio ou gerar conteúdo “fofo” e engajamento.

Mas há um lado sensível nessa prática: crianças e adolescentes não participaram da decisão de expor aquelas imagens e histórias. A construção da autoestima, da identidade e da autonomia passa também pela possibilidade de escolher o que mostrar ou não. Quando a infância vira conteúdo constante, é a privacidade dos menores que entra em risco — e, no futuro, essas postagens podem gerar incômodos, vergonha e até bullying.

Por que estamos compartilhando tanto?

As razões por trás do oversharing são complexas e vão muito além de uma explicação simplista baseada em “vício em dopamina”. Curtidas, comentários e visualizações realmente ativam circuitos de recompensa no cérebro e geram sensação de prazer e aceitação. Cada notificação funciona como um pequeno “reforço” que incentiva a repetir aquele comportamento.

Mas não é só química cerebral. Fatores sociais, culturais e emocionais também pesam:

  • Busca por apoio e pertencimento – Em meio à solidão, ao estresse e às incertezas, falar de dores nas redes pode ser uma tentativa de encontrar pessoas que entendam o que estamos vivendo. Em alguns casos, compartilhar experiências ligadas à saúde mental ajuda a acessar redes informais de apoio, trocar estratégias de enfrentamento e construir senso de comunidade.
  • Normalização da vulnerabilidade pública – Se, durante muito tempo, o ideal era mostrar uma vida perfeita, hoje a “sinceridade brutal” virou valor. Mostrar as falhas e as crises se tornou, para muita gente, uma forma de provar autenticidade.
  • Efeito catártico – Escrever um texto, gravar um vídeo ou fazer um stories chorando também é, de certa forma, um jeito de organizar pensamentos e processar emoções. Uma versão digital do antigo diário, só que com plateia e respostas imediatas.
  • Cultura da performance – Mesmo a vulnerabilidade acaba entrando em um jogo de performance: quem sofre mais, quem se expõe mais, quem entrega a “história mais pesada”. Nesse contexto, a linha entre desabafo sincero e conteúdo para engajar fica cada vez mais tênue.

Quando a superexposição começa a cobrar o preço

O oversharing não é automaticamente “bom” ou “ruim”. Em algumas situações, abrir uma experiência difícil pode ser libertador, aproximar pessoas e incentivar outras a buscar ajuda. O problema está em não perceber os limites — tanto os nossos quanto os dos outros.

Alguns riscos frequentes são:

  • Críticas, ridicularização e ataques – Nem todo mundo que assiste a um desabafo está disposto a acolher. Comentários cruéis, piadas e haters podem transformar um momento vulnerável em um episódio traumático, aumentando vergonha e arrependimento.
  • Comparação social constante – Ver o sofrimento do outro em formato de conteúdo pode levar à ideia de que “todo mundo se expõe, só eu que não”. Ou ainda: “meus problemas não são tão graves quanto os deles, então não tenho direito de sofrer”. Esse tipo de comparação pode intensificar sentimentos de inadequação.
  • Dependência de aprovação externa – Quando a autoestima fica atrelada às reações da audiência, o bem-estar emocional vira refém das métricas. Uma postagem íntima que “não engaja” pode ser interpretada como rejeição. Para compensar, a pessoa pode se expor ainda mais, numa espécie de escalada de intensidade emocional.
  • Pegada emocional digital permanente – Um vídeo pode ser apagado, mas prints, repostagens e recortes continuam circulando. Uma frase dita num momento de desespero pode reaparecer anos depois em uma entrevista de emprego, em um relacionamento ou em novos ciclos de vida.
  • Impacto em terceiros – No caso do sharenting ou de postagens que envolvem familiares, parceiros ou amigos, a superexposição atinge também quem não escolheu aparecer. Conflitos íntimos transformados em conteúdo público podem gerar mágoas duradouras e afetar laços afetivos.

Como encontrar limites saudáveis nas redes sociais

Antes de compartilhar, vale tentar fazer uma pausa e se perguntar com honestidade:
O que eu estou buscando ao postar isso?
É desabafo? Apoio genuíno? Atenção? Validação? Uma mistura de tudo?

Essa pequena reflexão pode evitar publicações impulsivas e ajudar a construir um uso mais consciente das redes. Algumas estratégias práticas podem fazer diferença:

  • Definir zonas de privacidade – Decida, com clareza, quais temas você não quer expor online: saúde mental, conflitos familiares, questões financeiras, intimidade afetiva, vida dos filhos… Ter esses limites definidos reforça a sensação de segurança e protege sua autoestima.
  • Usar ferramentas de privacidade a seu favor – Recursos como “amigos próximos”, contas privadas, restrição de comentários ou listas específicas de compartilhamento permitem que desabafos mais sensíveis circulem em ambientes menores, com pessoas de confiança.
  • Buscar apoio fora da tela – Terapia, grupos presenciais, amigos e familiares seguem sendo fundamentais. A escuta atenta de alguém que conhece sua história costuma ser mais consistente do que a reação rápida de uma multidão digital. Combinar apoio online e offline tende a trazer uma rede de cuidado mais sólida.
  • Criar canais privados de expressão – Manter um diário, gravar áudios para si mesmo, escrever cartas que talvez nunca sejam enviadas ou transformar emoções em arte são formas de colocar para fora sem necessariamente expor tudo na internet.
  • Respeitar o tempo das crianças e adolescentes – Antes de postar fotos, vídeos ou relatos envolvendo filhos, sobrinhos ou alunos, é importante pensar no futuro: como essa criança vai se sentir ao ver esse conteúdo daqui a alguns anos? Se já for maior, vale incluir na conversa e perguntar se ela concorda com a exposição.

Autenticidade não exige exposição total

O oversharing revela um paradoxo do nosso tempo: buscamos conexão verdadeira, mas muitas vezes depositamos essa busca em um espaço onde empatia e julgamento caminham lado a lado, e onde o que é íntimo pode se tornar público para sempre.

Ser honesto sobre o que sentimos não significa colocar todas as feridas na vitrine. Proteger a própria privacidade emocional é também uma forma de autocuidado. Em um ambiente que premia a superexposição, cultivar espaços reservados — com pessoas de confiança e com a gente mesmo — pode ser um gesto poderoso para preservar a saúde mental.

RELATED ARTICLES
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Most Popular

Recent Comments