Descoberta de microrganismos que fazem fotossíntese no escuro amplia as possibilidades de encontrar vida em planetas que orbitam estrelas anãs vermelhas.
No coração do deserto de Chihuahua, no sul do Novo México, uma descoberta científica silenciosa está ecoando pelo Universo.
Foi em uma das mais de 100 cavernas do Parque Nacional das Cavernas de Carlsbad que a bióloga Hazel Barton se deparou com algo inesperado: uma parede verde brilhante em um ambiente de escuridão quase absoluta. Ali, microrganismos não apenas sobreviviam — eles produziam energia.

A surpresa? Eles faziam fotossíntese sem luz solar direta.
Vida onde não deveria existir
As cavernas de Carlsbad se formaram entre quatro e 11 milhões de anos atrás, quando o ácido sulfúrico dissolveu rochas calcárias, criando câmaras subterrâneas monumentais. Hoje, o local recebe cerca de 350 mil visitantes por ano, mas poucos imaginam que, além das estalactites e salões gigantescos, ali pode estar uma pista crucial para a vida fora da Terra.

Em regiões profundas e totalmente escuras, pesquisadores encontraram cianobactérias capazes de captar radiação infravermelha próxima — um tipo de luz invisível ao olho humano.
Enquanto a luz visível é rapidamente absorvida pelas rochas, o infravermelho próximo se espalha pelo ambiente calcário como se estivesse refletindo em um salão de espelhos. Resultado: níveis dessa radiação foram encontrados até 695 vezes mais concentrados nas áreas mais profundas da caverna do que na entrada.
Esses micróbios utilizam versões especiais de clorofila — chamadas clorofila d e f — que permitem a fotossíntese em comprimentos de onda maiores que os tradicionalmente considerados possíveis para sustentar vida.
O que isso muda na busca por vida no Universo?
Durante décadas, cientistas acreditaram que a fotossíntese só poderia ocorrer até o limite da luz vermelha visível (cerca de 700 nanômetros). A descoberta nas cavernas de Carlsbad amplia esse limite para aproximadamente 780 nanômetros — dentro da faixa do infravermelho próximo.
Isso é revolucionário.
A maioria das estrelas da nossa galáxia não é como o Sol. O tipo mais abundante são as anãs vermelhas, estrelas frias e pequenas que emitem principalmente luz infravermelha. Entre os bilhões de exoplanetas já identificados, muitos orbitam esse tipo de estrela.
Equipamentos como o Telescópio Espacial James Webb já analisam atmosferas de exoplanetas em busca de sinais como oxigênio — um possível indicativo de vida. Agora, com a ampliação do entendimento sobre os limites da fotossíntese, a chamada “zona habitável” pode ser maior do que se pensava.
Se microrganismos conseguem produzir energia em cavernas escuras na Terra, sob luz infravermelha refletida, por que não poderiam fazer o mesmo em planetas que orbitam estrelas anãs vermelhas?
Uma descoberta que redefine limites
A pesquisa reforça uma lição fundamental da ciência: a vida é mais adaptável do que imaginamos.
Por muito tempo, acreditou-se que ambientes sem luz solar direta seriam biologicamente limitados. Mas as cavernas de Carlsbad demonstram que a fronteira da habitabilidade pode ser muito mais ampla — tanto aqui quanto além do nosso planeta.
A pergunta que fica é provocadora:
Se a vida encontra um jeito na escuridão da Terra, onde mais ela pode estar escondida?


