Mesmo décadas após sua morte, Cora Coralina segue como referência viva na Cidade de Goiás, influenciando o turismo cultural, projetos liderados por mulheres e a forma como o município se reconhece e se apresenta ao Brasil.
Reconhecida internacionalmente pelo conjunto arquitetônico colonial e pelo título de Patrimônio Mundial concedido pela Unesco em 2001, a Cidade de Goiás carrega uma identidade que vai além dos casarões, das igrejas e das tradições religiosas. Essa identidade foi moldada, em grande parte, pela obra de Cora Coralina, que transformou o cotidiano vilaboense em literatura e memória coletiva.
A poetisa fez da cidade não apenas cenário, mas matéria-prima de sua escrita. Becos, quintais, cozinhas, mulheres trabalhadoras e saberes populares atravessam seus textos e ajudaram a construir uma narrativa própria sobre Goiás — uma cidade contada por dentro, a partir das experiências simples e muitas vezes invisibilizadas.
Mesmo após décadas de sua morte, a poesia de Cora continua influenciando a forma como a cidade se organiza culturalmente, se apresenta ao turismo e fortalece o sentimento de pertencimento entre seus moradores.
Quando a literatura vira roteiro turístico
O turismo na Cidade de Goiás se estrutura hoje em torno de experiências que dialogam diretamente com a obra de Cora Coralina. A casa onde a poetisa viveu, às margens do Rio Vermelho, tornou-se um dos espaços mais visitados do município e funciona como ponto de partida para uma imersão literária e afetiva.

Versos, personagens e cenários descritos em seus livros atravessam visitas guiadas, roteiros históricos, feiras culturais e experiências gastronômicas. A cidade passou a ser narrada não apenas por datas e monumentos, mas por histórias de mulheres, trabalhadores, becos e quintais — exatamente como Cora registrou em sua poesia.
Essa leitura ampliou o entendimento de patrimônio na cidade. A memória deixou de estar centrada apenas nas elites políticas ou religiosas e passou a valorizar o trabalho manual, a culinária tradicional, o artesanato e as vozes femininas que ficaram à margem dos registros oficiais. Essa perspectiva influencia até hoje ações educativas, projetos culturais e a preservação do patrimônio imaterial em Goiás.
Mulheres Coralinas: quando a obra vira ação coletiva
É nesse contexto que surge o coletivo Mulheres Coralinas, inspirado diretamente na vida e na obra da poetisa. O grupo nasceu a partir de uma política pública municipal e utiliza a literatura de Cora como eixo central na formação de mulheres em situação de vulnerabilidade.
A obra da escritora não entra como símbolo decorativo, mas como ferramenta formativa. As participantes têm acesso sistemático à leitura da vida e dos textos de Cora, em oficinas que conectam poesia, memória local, identidade e direitos das mulheres. A proposta é fortalecer autonomia econômica, autoestima e permanência dessas mulheres no território, evitando que a cidade se transforme apenas em cenário turístico desconectado de quem a habita.

O coletivo mantém oficinas, cursos e ações culturais que unem produção artesanal, gastronomia tradicional e letramento literário. Parte dessa produção é voltada ao turismo cultural, transformando receitas, técnicas e narrativas locais em fonte de renda e preservação da memória.
Ao atuar com doceiras, artesãs, bordadeiras, cozinheiras e educadoras, o grupo ajuda a manter vivos saberes que aparecem com frequência na obra de Cora Coralina: o trabalho doméstico, a comida feita à mão, a oralidade e a experiência feminina como centro da história.
Identidade moldada pela palavra
A influência de Cora Coralina na Cidade de Goiás vai além do turismo e dos projetos culturais. Ela se consolidou como referência simbólica da identidade local. Mulher que publicou tardiamente, doceira que transformou o trabalho manual em literatura e autora que escolheu narrar os “anônimos” da cidade, Cora representa uma forma de existir marcada por resistência, simplicidade e dignidade.

Mais do que cenário histórico, Goiás se tornou uma cidade narrada por dentro — onde literatura, cultura e vida seguem entrelaçadas, como nos versos que ainda ecoam pelas ruas de pedra da antiga Vila Boa.


