Especialistas chineses admitem que ultrapassar líderes americanas nos próximos anos é improvável — mas estratégia alternativa pode mudar o jogo
Durante um encontro histórico em Pequim, em janeiro, alguns dos principais nomes da inteligência artificial chinesa discutiram uma pergunta decisiva: uma empresa chinesa pode ultrapassar as líderes americanas de IA nos próximos três a cinco anos?
A resposta surpreendeu.
Justin Lin, líder técnico dos modelos Qwen, da Alibaba, foi direto: as chances são inferiores a 20% — e, segundo ele, esse número já seria otimista.
A declaração contrasta com o cenário de euforia que marcou o último ano, especialmente após o impacto global causado pela DeepSeek, startup chinesa que lançou um modelo poderoso com custo significativamente inferior aos equivalentes americanos.
Mas, por trás das manchetes e dos IPOs bilionários, especialistas alertam para desafios estruturais que ainda pesam contra a China.
Chips avançados e capital limitado: os principais entraves
O maior obstáculo apontado é o acesso restrito a chips de alto desempenho — especialmente após as sanções e controles de exportação dos Estados Unidos.
Mesmo com liberações condicionais para compra de GPUs como o H200 da Nvidia, Pequim ainda precisa equilibrar a necessidade imediata de tecnologia avançada com o objetivo estratégico de autossuficiência.
Além disso, o capital disponível para startups chinesas é mais restrito do que nos EUA. Diferentemente do Vale do Silício, onde rodadas bilionárias de investimento são comuns, empresas chinesas enfrentam pressão para abrir capital rapidamente e provar viabilidade comercial.
“Muitas estão queimando caixa e precisam entrar no mercado de ações o mais rápido possível”, avaliam analistas do setor.
A aposta chinesa: código aberto como arma estratégica
Se não pode competir no mesmo modelo, a China está jogando um jogo diferente.
A estratégia de modelos de código aberto tornou-se quase um consenso na indústria chinesa. A Alibaba já lançou mais de 400 versões abertas do Qwen, ultrapassando um bilhão de downloads.
Essa abordagem reduz custos, amplia adoção global e cria um ecossistema acelerado de desenvolvedores. O uso global de modelos abertos saltou de 1,2% no fim de 2024 para quase 30% em 2025, segundo estudos do setor.
Além disso, o código aberto reduz riscos geopolíticos: mesmo sob sanções, modelos já liberados continuam circulando globalmente.
Há também uma questão cultural e econômica: o mercado chinês historicamente paga menos por software, o que torna o modelo fechado menos viável.
Aplicação industrial: onde a China pode ganhar vantagem
Embora reconheçam que os modelos de ponta ainda estejam atrás dos americanos, especialistas destacam que a China tem avançado rapidamente na industrialização da IA.
A tecnologia já está sendo integrada de forma agressiva à manufatura, ao comércio eletrônico, à robótica e à produção de veículos elétricos.
Pequim lançou recentemente um plano nacional para aprofundar o uso de IA na indústria — parte de uma estratégia de modernização tecnológica de longo prazo.
Ou seja, talvez a disputa não seja apenas sobre quem tem o modelo mais avançado, mas sobre quem consegue aplicar a tecnologia em escala real mais rapidamente.
A corrida da IA é tecnológica — mas também cultural
Um dos pontos mais sensíveis levantados por especialistas chineses é cultural: a menor tolerância ao risco em comparação com o ambiente empreendedor americano.
Mesmo com abundância de talentos técnicos, a disposição para apostar alto e assumir riscos disruptivos ainda é vista como um diferencial dos EUA.
Afinal, a China está ficando para trás?
A resposta é mais complexa do que parece.
No desenvolvimento de modelos de ponta, a vantagem americana permanece clara.
Mas na aplicação prática, no código aberto e na integração industrial, a China está construindo um caminho próprio.
Talvez a pergunta correta não seja se a China ultrapassará os EUA — mas se a corrida da IA será vencida por quem lidera a pesquisa ou por quem domina a aplicação.
E essa disputa está apenas começando.


