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Relaxar com telas pode estar aumentando o estresse, e não diminuindo

Estudos indicam que o uso excessivo e simultâneo de dispositivos digitais dificulta o descanso real do cérebro

O hábito de “relaxar” assistindo a séries, rolando o feed do celular ou alternando entre várias telas ao mesmo tempo se tornou parte da rotina de milhões de pessoas. No entanto, pesquisas recentes em neurociência e saúde pública indicam um paradoxo preocupante: aquilo que parece descanso pode, na prática, estar mantendo o cérebro em estado de alerta constante — e contribuindo para níveis mais altos de estresse, ansiedade e exaustão mental.

Dados do instituto Gallup, que monitora a saúde mental da população americana desde 2001, mostram que a percepção de bem-estar emocional está no nível mais baixo já registrado. Cerca de um terço dos adultos relata sentir-se sobrecarregado na maioria dos dias, com queixas frequentes de ansiedade, dificuldade de concentração e problemas de sono.

O lazer moderno sob análise científica

Pesquisas sobre uso do tempo, conduzidas pelo Bureau of Labor Statistics (EUA), apontam que assistir à televisão continua sendo a principal atividade de lazer entre adultos — agora frequentemente combinada com o uso do celular, prática conhecida como second screening. Estudos mostram que essa sobreposição de telas aumenta a carga cognitiva e dificulta a recuperação mental.

Segundo levantamentos citados por pesquisadores da área de comportamento e saúde pública, adultos passam em média seis a sete horas por dia diante de telas, muitas vezes alternando entre dispositivos. Há também evidências de que o celular pode ser checado mais de 100 vezes ao dia, fragmentando continuamente a atenção.

O que acontece no cérebro

Estudos em neurociência demonstram que a exposição constante a estímulos digitais ativa regiões do cérebro ligadas à atenção, emoção e tomada de decisão — exatamente os sistemas que deveriam desacelerar durante o descanso. Plataformas digitais utilizam algoritmos que priorizam conteúdos emocionalmente intensos, como indignação, ansiedade e urgência, porque esses sentimentos aumentam o engajamento.

Pesquisas associam esse padrão de consumo digital a níveis mais elevados de estresse percebido, fadiga mental e dificuldade de foco, mesmo quando a pessoa acredita estar “relaxando”.

Quando o descanso não restaura

Especialistas em saúde pública alertam que práticas como maratonar séries, rolar o feed na cama (bed-rotting) ou usar telas como som de fundo podem reduzir exigências externas, mas não criam as condições biológicas necessárias para a restauração do sistema nervoso.

O estresse contínuo, quando não compensado por descanso real, está associado a maior risco de doenças crônicas. Dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) indicam que 6 em cada 10 adultos nos EUA vivem com pelo menos uma condição crônica, muitas delas relacionadas ao estresse prolongado.

O que a ciência recomenda

Em vez de adicionar mais técnicas de autocuidado, especialistas defendem reduzir estímulos. Evidências sugerem que ações simples podem favorecer a recuperação mental:

  • Evitar o uso simultâneo de várias telas
  • Diminuir interrupções e trocas constantes de tarefa
  • Passar tempo em ambientes silenciosos ou ao ar livre
  • Priorizar atividades analógicas e de baixa estimulação, como leitura em papel, caminhadas sem celular e escrita

O objetivo não é abandonar a tecnologia, mas usá-la com mais consciência. Menos estímulos, menos demandas emocionais e mais tempo protegido para o descanso cognitivo são apontados por pesquisadores como componentes essenciais para o bem-estar em uma sociedade hiperconectada.

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