Tecnologia em desenvolvimento usa radiação infravermelha liberada à noite e chama a atenção de pesquisadores da Austrália e da NASA, especialmente para aplicações espaciais
Mesmo após o pôr do sol, a Terra continua emitindo energia. Invisível aos olhos humanos, esse calor liberado na forma de radiação infravermelha tem despertado o interesse da ciência e impulsionado pesquisas sobre a chamada energia solar noturna — uma alternativa inovadora que busca gerar eletricidade sem depender da luz visível do Sol.
Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade de New South Wales (UNSW), na Austrália, em parceria com cientistas da NASA, apontam que é possível converter esse calor residual em energia elétrica. A tecnologia ainda está em fase experimental, mas já é vista como estratégica para satélites e missões espaciais de longa duração.
A ciência por trás do calor noturno
Durante o dia, superfícies terrestres e estruturas artificiais absorvem calor solar. À noite, esse calor é devolvido ao espaço na forma de radiação infravermelha, um tipo de energia invisível, mas mensurável. É justamente esse fenômeno que fundamenta a energia solar noturna.
No centro da tecnologia está o diodo termorradiativo, um semicondutor que funciona de maneira oposta aos painéis solares tradicionais. Enquanto os painéis absorvem luz para gerar eletricidade, o diodo emite radiação infravermelha e, a partir da diferença de temperatura entre o dispositivo aquecido e o frio extremo do espaço, produz corrente elétrica.
Segundo o professor Ned Ekins-Daukes, da UNSW, a Terra literalmente “brilha” à noite quando observada por câmeras infravermelhas. Em 2022, sua equipe demonstrou experimentalmente que esse brilho térmico pode ser convertido em eletricidade, consolidando o conceito da geração elétrica noturna.
Aplicações estratégicas no espaço
Na superfície da Terra, a eficiência da energia solar noturna ainda é limitada. A atmosfera reduz o contraste térmico necessário para uma produção significativa de eletricidade. No espaço, porém, o cenário é diferente — e promissor.
Satélites em órbita passam por ciclos constantes de luz e sombra. Nesse ambiente, a energia solar noturna pode atuar como fonte complementar, permitindo que equipamentos continuem operando mesmo durante eclipses, quando ficam temporariamente sem luz solar direta.
Para a NASA, a tecnologia pode representar:
- Maior eficiência energética em satélites;
- Redução da dependência de baterias pesadas;
- Aproveitamento do calor residual dos próprios componentes das naves.
Além disso, em missões espaciais mais distantes, os diodos termorradiativos podem ajudar a reduzir o uso de geradores movidos a plutônio — sistemas caros, complexos e volumosos atualmente utilizados no espaço profundo.
Um futuro mais constante para a energia renovável
Pesquisadores como Geoffrey Landis e Stephen Polly, da NASA, avaliam que conjuntos de diodos menores podem substituir parte dos sistemas tradicionais, aumentando a eficiência energética e diminuindo o peso das missões. Paralelamente, estudos em novos materiais buscam garantir resistência a altas temperaturas e longa durabilidade, essenciais para operações que podem durar décadas.
Com testes em ambientes quase espaciais previstos para os próximos anos e apoio institucional internacional, a expectativa é que a energia solar noturna avance do laboratório para aplicações práticas.
Ao transformar calor que antes simplesmente se dissipava no espaço em eletricidade, a tecnologia amplia as fronteiras da energia renovável e reforça uma ideia poderosa: mesmo na escuridão, ainda há energia a ser aproveitada.


