Maior marca da série histórica mostra recuperação após a pandemia e queda na mortalidade infantil, mas desigualdades regionais, de gênero e violência ainda seguram o avanço da longevidade no Brasil.
A expectativa de vida ao nascer no Brasil chegou a 76,6 anos em 2024, segundo novas projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número confirma a trajetória de recuperação depois do impacto da pandemia de Covid-19, que derrubou a média nacional para 72,8 anos em 2021, e supera o dado de 2023, quando o indicador estava em 76,4 anos.
O salto é ainda mais evidente quando se olha para o passado: em 1940, primeiro ano da série histórica, um brasileiro vivia em média 45,5 anos. Em pouco mais de oito décadas, o país ganhou mais de 30 anos de vida. Ainda assim, o Brasil continua atrás da média dos países desenvolvidos e de vários vizinhos sul-americanos em termos de longevidade.
Brasil vive mais, mas ainda abaixo dos países mais longevos
No cenário internacional, a expectativa de vida dos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) gira em torno de 80,8 anos, acima, portanto, dos 76,6 anos brasileiros. A média mundial, segundo a ONU, é de 73,4 anos – o que coloca o Brasil acima do índice global, mas aquém dos países que lideram o ranking de longevidade.

Em 2024, nações como Mônaco (86,5 anos), San Marino (85,8), Hong Kong (85,6), Japão (84,9) e Coreia do Sul (84,4) aparecem entre as primeiras posições. Também se destacam países europeus como Suíça, Itália e Espanha, além de Austrália e Singapura, todos com expectativa de vida acima dos 83 anos.
Na América do Sul, o Brasil também não lidera. Países como Chile (81,4 anos), Uruguai (78,3), Colômbia e Peru (77,9), Equador (77,6) e Argentina (77,5) apresentam índices superiores aos brasileiros. O Brasil aparece com 76,6 anos, ficando no meio da tabela regional, à frente de países como Paraguai, Venezuela, Guiana e Bolívia.
Esse quadro reforça um diagnóstico conhecido por especialistas em demografia e saúde pública: o país evoluiu muito, mas tem dificuldade para manter o ritmo de melhora das condições de vida e de acesso à saúde em comparação com outras nações.
Desaceleração e desafios para chegar aos 80 anos
Para demógrafos, o aumento da expectativa de vida após a fase crítica da pandemia é uma boa notícia, mas vem acompanhado de um sinal de alerta: a desaceleração do ritmo de crescimento.
Nas décadas passadas, especialmente entre os anos 2000 e 2010, o Brasil conseguiu avanços mais robustos, impulsionados pela redução da mortalidade infantil, ampliação da vacinação, maior acesso a serviços básicos e expansão da atenção primária em saúde. De lá para cá, porém, o ganho em anos de vida tem sido cada vez menor.
Chegar a uma expectativa média de 80 anos exigirá mudanças mais profundas, como ampliar o combate à violência letal, reduzir desigualdades de renda, raça e gênero, garantir saneamento e fortalecer políticas de prevenção em saúde. Sem isso, o país corre o risco de manter um crescimento “lento e cansado” da longevidade.
Mulheres vivem mais que homens – e isso não é coincidência
Os novos dados reforçam um padrão já conhecido: mulheres vivem mais que homens no Brasil.
- Expectativa de vida das mulheres em 2024: 79,9 anos
- Expectativa de vida dos homens em 2024: 73,3 anos

A diferença é explicada em grande parte por padrões de comportamento e de exposição ao risco. Homens costumam procurar menos serviços de saúde, adiar consultas, negligenciar prevenção e, ao mesmo tempo, estão mais sujeitos a:
- acidentes de trânsito;
- violência urbana e homicídios;
- atividades profissionais de maior risco;
- consumo abusivo de álcool e outras drogas.
Essa sobremortalidade masculina, concentrada sobretudo entre jovens, pardos e negros da periferia, derruba a média geral do país. Ao mesmo tempo, revela que o debate sobre longevidade passa por questões de gênero, raça, classe e território – não é apenas um dado biológico ou individual.
Mortalidade infantil cai, mas ainda não voltou ao cenário pré-pandemia
Outro ponto importante dos dados do IBGE é a taxa de mortalidade infantil, que mede o número de óbitos de bebês com menos de 1 ano a cada mil nascimentos.
- Em 1940, o índice era de 146,6 por mil nascidos vivos – uma realidade de altíssimo risco.
- Em 2000, já havia caído para 28,1.
- Em 2023, era de 12,5.
- Em 2024, recuou para 12,3 por mil.
Mesmo com a melhora recente, o indicador ainda não retomou os melhores níveis pré-pandemia, que chegaram a 12,1 em 2019 e 11,4 em 2020. O mesmo ocorre com a mortalidade de crianças entre 1 e 4 anos, que permanece um pouco acima dos menores patamares registrados antes da Covid-19.
A redução da mortalidade infantil no Brasil é resultado de um conjunto de fatores, como:
- campanhas de vacinação em massa;
- ampliação do pré-natal e da atenção básica;
- incentivo ao aleitamento materno;
- atuação de agentes comunitários de saúde;
- programas de nutrição e políticas sociais voltadas à infância;
- aumento da renda, da escolaridade e do acesso ao saneamento.
Cada vida infantil preservada contribui diretamente para elevar a expectativa de vida média do país, além de significar famílias menos marcadas por perdas precoces.
Viver mais… e melhor: o desafio da qualidade de vida
A expectativa de vida ao nascer é uma fotografia importante, mas não conta toda a história. Outro dado relevante é quanto tempo as pessoas vivem depois de atingir certas idades.
Em 1940, quem chegava aos 60 anos no Brasil podia esperar viver, em média, mais 13,2 anos (11,6 anos para homens e 14,5 para mulheres). Em 2024, esse cenário mudou bastante:
- Aos 60 anos, a expectativa é de viver mais 22,6 anos (20,8 para homens e 24,2 para mulheres);
- Aos 70 anos, a projeção é de mais 15,2 anos;
- Aos 75, são 11,9 anos em média;
- Acima dos 80 anos, a expectativa ainda é de cerca de 9 anos.
Isso significa que, além de mais brasileiros chegarem à velhice, mais pessoas atravessam a barreira dos 80 anos. Em 1940, a cada mil pessoas que chegavam aos 60 anos, apenas 213 atingiam os 80. Em 2024, em um grupo do mesmo tamanho, 623 completam 80 anos.
O desafio, agora, é garantir que esses anos a mais sejam vividos com qualidade de vida, acesso a cuidados, inclusão social e suporte às famílias que acompanham o envelhecimento de seus parentes.
O que os números dizem sobre o Brasil de hoje
Os dados do IBGE reforçam duas mensagens:
- O Brasil mudou muito em 80 anos. Investimentos em saúde pública, vacinação, educação, renda e infraestrutura salvaram milhões de vidas e permitiram que a população vivesse, em média, mais de três décadas a mais.
- Ainda falta fôlego para acompanhar o ritmo de países mais desenvolvidos e de vizinhos sul-americanos. A violência, as desigualdades sociais e raciais, as falhas de saneamento, a falta de acesso a serviços de saúde em muitas regiões e a precarização de políticas públicas impedem que a longevidade avance com mais força.
Entender esses números é essencial para planejar o futuro: um país que envelhece precisa pensar em políticas para a população idosa, prevenção de doenças crônicas, mobilidade urbana, acessibilidade, cuidado em saúde mental e suporte às famílias cuidadoras.
Viver mais é uma conquista. Viver melhor, com direitos garantidos e menos desigualdade, é o próximo passo que o Brasil ainda precisa dar.


