“Ozempic brasileiro” enfrenta barreiras regulatórias, industriais e de mercado antes de chegar às farmácias
A patente da Ozempic, medicamento usado para diabetes e amplamente popularizado como tratamento para emagrecimento, deixará de vigorar no Brasil em 20 de março. A mudança abriu espaço para a expectativa de que versões nacionais mais baratas cheguem rapidamente às farmácias.
Na prática, porém, especialistas afirmam que o chamado “Ozempic brasileiro” pode demorar a aparecer — e mesmo quando chegar ao mercado, os preços não devem cair tanto quanto muitos imaginam.
Isso acontece por uma combinação de fatores regulatórios, industriais e estratégicos dentro do mercado farmacêutico.
Aprovação regulatória ainda é um obstáculo
Um dos primeiros desafios está na autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A agência já analisa 14 pedidos de registro para produção de semaglutida, o princípio ativo do medicamento. No entanto, a aprovação ocorre em ritmo limitado: no máximo três registros por semestre.
Com esse cronograma, a liberação de novos fabricantes pode se estender até 2028.
Mesmo depois da autorização, os laboratórios ainda precisam de alguns meses para produzir, distribuir e colocar o medicamento nas farmácias. A previsão mais otimista do setor aponta para lançamentos a partir do segundo semestre deste ano.
Queda de preço deve ser pequena no início
Outro fator importante é que a maioria dos novos medicamentos não será classificada como genérico, mas sim como similar.
A diferença é relevante para o bolso do consumidor.
- Medicamentos genéricos precisam ser pelo menos 35% mais baratos que o original.
- Já os similares exigem apenas cerca de 20% de desconto.
Hoje, o Ozempic custa em média R$ 1.299, embora promoções possam reduzir o valor para perto de R$ 1.000.
Com a chegada das versões nacionais, especialistas estimam preços iniciais por volta de R$ 900, com quedas mais significativas apenas ao longo dos próximos cinco anos.
Produzir canetas emagrecedoras é caro e complexo
A fabricação dessas canetas injetáveis exige instalações altamente especializadas.
Diferente de comprimidos comuns, esses medicamentos precisam de:
- ambiente estéril rigorosamente controlado
- monitoramento microbiológico constante
- tecnologia de envase avançada
- transporte refrigerado durante toda a logística
Por causa disso, poucas empresas no Brasil têm capacidade de produzir esse tipo de medicamento.
Uma das farmacêuticas nacionais que investem nesse mercado é a EMS, que aplicou cerca de R$ 1,2 bilhão em uma nova fábrica para produzir canetas injetáveis.
Já a criadora do Ozempic, a dinamarquesa Novo Nordisk, também se prepara para reforçar sua presença no país, com investimento de R$ 6,4 bilhões em uma fábrica em Minas Gerais.
Concorrência inicial será limitada
Mesmo com a queda da patente, a concorrência pode ser pequena nos primeiros anos.
Isso acontece porque:
- poucas empresas têm capacidade industrial
- algumas farmacêuticas dependem de importação de insumos
- outras precisam firmar parcerias com fabricantes estrangeiros
Esse cenário tende a manter os preços relativamente altos no início.
Novo rival já mudou o mercado
Outro elemento que altera a dinâmica do setor é a chegada do Mounjaro, medicamento da farmacêutica Eli Lilly.
Com um princípio ativo diferente — a tirzepatida — o medicamento tem mostrado resultados ainda mais expressivos na perda de peso.
Em janeiro, por exemplo, o Mounjaro vendeu cerca de R$ 850 milhões no Brasil, superando as vendas combinadas dos principais produtos à base de semaglutida.
Mercado bilionário e cada vez mais disputado
O crescimento dessas terapias transformou o setor em um dos mais lucrativos da indústria farmacêutica.
O mercado brasileiro de canetas para emagrecimento movimentou cerca de R$ 12 bilhões no último ano, com faturamento dobrando em relação ao período anterior.
Enquanto novas drogas continuam sendo desenvolvidas, analistas acreditam que a verdadeira queda de preços só ocorrerá quando mais fabricantes entrarem no mercado — algo que pode levar vários anos.
Até lá, mesmo com o fim da patente do Ozempic, o medicamento deve continuar sendo um dos tratamentos mais caros do país.


