Estudos mostram diminuição da frequência sexual nas últimas décadas e crescimento do uso da reposição hormonal para recuperar a libido
A redução do desejo sexual tem chamado a atenção de pesquisadores e profissionais da saúde em diversos países. Estudos recentes indicam que a frequência das relações sexuais vem diminuindo nas últimas décadas — um fenômeno que levanta debates sobre mudanças sociais, estilo de vida moderno e o papel dos hormônios no comportamento humano.
Ao mesmo tempo, cresce o interesse pela terapia de reposição de testosterona (TRT), frequentemente divulgada como uma possível solução para recuperar energia, disposição e libido. No entanto, especialistas alertam que a questão é complexa e envolve fatores físicos, emocionais e sociais.
Pesquisa revela queda na frequência sexual
Uma das principais pesquisas sobre comportamento sexual no mundo, a Pesquisa Nacional de Comportamento Sexual e Estilo de Vida (Natsal), realizada no Reino Unido com mais de 10 mil pessoas, mostra uma tendência clara de redução da atividade sexual.
Segundo os dados compilados pelo estudo:
- Nos anos 1990, adultos britânicos relatavam em média cinco relações sexuais por mês.
- Em 2000, a média caiu para quatro vezes por mês.
- Em 2010, o número recuou para cerca de três relações mensais.
Os próximos resultados da pesquisa devem ser divulgados em breve, e pesquisadores já antecipam que a tendência de queda pode continuar.
De acordo com Soazig Clifton, diretora acadêmica da pesquisa, a diminuição ocorre em praticamente todos os grupos analisados.
“Observamos uma queda geral na frequência sexual ao longo dos anos, inclusive entre casais que vivem juntos”, afirma.
Curiosamente, algumas das reduções mais significativas foram registradas justamente entre casais casados ou que compartilham a mesma casa.
Estresse, tecnologia e estilo de vida
Especialistas apontam que não existe uma causa única para essa mudança no comportamento sexual.
Entre os fatores mais citados estão:
- aumento do estresse cotidiano
- maior incidência de depressão e ansiedade
- solidão e mudanças nos relacionamentos
- impacto da vida digital hiperconectada
- menos tempo para descanso e intimidade
Além disso, pesquisadores observam que o estilo de vida moderno pode afetar diretamente a produção hormonal.
Segundo o urologista Geoffrey Hackett, diversos estudos das últimas duas décadas mostram que os níveis médios de testosterona nos homens têm diminuído gradualmente.
Entre os fatores que contribuem para isso estão:
- obesidade
- diabetes tipo 2
- sedentarismo
- envelhecimento da população
A testosterona masculina tende a cair cerca de 1% ao ano a partir dos 30 ou 40 anos, algo considerado natural do processo de envelhecimento.
Cresce a busca pela reposição hormonal
Com o aumento da discussão sobre libido e hormônios, o uso da terapia de reposição de testosterona também vem crescendo.
Dados da NHS Business Authority, órgão ligado ao sistema público de saúde britânico, apontam que as prescrições de testosterona aumentaram 135% entre 2021 e 2024.
Homens e mulheres relatam melhora na energia, na concentração e na vida sexual após o tratamento. Em alguns casos, pacientes dizem que a terapia ajudou inclusive a melhorar relacionamentos afetivos.
Para mulheres, o tratamento pode ser indicado em situações específicas, como o transtorno do desejo sexual hipoativo, condição que pode surgir especialmente durante a menopausa.
Especialistas alertam para exageros
Apesar dos relatos positivos, médicos destacam que a reposição hormonal não deve ser vista como solução universal.
Alguns profissionais de saúde afirmam que clínicas privadas têm explorado o tema de forma excessiva, incentivando tratamentos que nem sempre são necessários.
A médica Paula Briggs, especialista em saúde sexual, afirma que a popularização do tratamento pode criar expectativas irreais.
Segundo ela, apenas uma pequena parcela das pessoas que acreditam ter deficiência hormonal realmente apresenta níveis que justificam a reposição.
Além disso, a terapia pode provocar efeitos colaterais.
Entre os possíveis efeitos estão:
Em homens:
- alterações de humor
- queda de fertilidade
- calvície
- ereções prolongadas
Em mulheres:
- crescimento de pelos
- acne
- ganho de peso
- alterações hormonais
Por isso, especialistas reforçam que o tratamento deve sempre ser acompanhado por avaliação médica.
Libido envolve muito mais do que hormônios
Médicos e pesquisadores ressaltam que o desejo sexual depende de diversos fatores além da testosterona.
Relacionamentos, saúde mental, autoestima, estilo de vida e até a qualidade da comunicação entre parceiros podem influenciar diretamente a libido.
Para alguns pacientes, mudanças simples podem trazer resultados significativos, como:
- prática regular de exercícios
- redução do estresse
- melhora do sono
- fortalecimento da relação afetiva
Nesse cenário, a testosterona pode ajudar em casos específicos, mas dificilmente é a única resposta.
Como resume um dos especialistas ouvidos nas pesquisas, não existe uma “solução mágica” para recuperar o desejo sexual — o equilíbrio entre saúde física, emocional e estilo de vida continua sendo o fator mais determinante.


