Google search engine
sexta-feira, janeiro 16, 2026
Google search engine
InícioCultura | TecnologiaLuz, câmera, algoritmo: como a inteligência artificial já transformou o cinema na...

Luz, câmera, algoritmo: como a inteligência artificial já transformou o cinema na Índia

Enquanto Hollywood resiste, a maior indústria cinematográfica do mundo incorpora a IA em todas as etapas da produção e levanta debates sobre criatividade, ética e identidade cultural

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta experimental para se tornar protagonista no cinema indiano. Da criação de roteiros à geração de imagens, do rejuvenescimento digital de atores à clonagem de vozes, a tecnologia já ocupa um espaço central em uma das maiores indústrias audiovisuais do planeta — em um movimento bem diferente do observado em Hollywood.

O cineasta indiano Vivek Anchalia é um dos símbolos dessa transformação. Diante da dificuldade de obter apoio de estúdios tradicionais, ele decidiu produzir seu próprio longa-metragem com o auxílio de ferramentas de IA como o ChatGPT e o Midjourney. O resultado foi Naisha, um romance musical no estilo Bollywood, desenvolvido praticamente de forma independente.

Com o Midjourney responsável pelos visuais e o ChatGPT atuando como suporte criativo e narrativo, Anchalia conseguiu adaptar a produção quadro a quadro, ao longo de pouco mais de um ano. Segundo ele, cerca de 95% do filme — com 75 minutos de duração — foi gerado por inteligência artificial, a um custo inferior a 15% de uma produção tradicional.

“Por que esperar pela aprovação de um estúdio se a IA me permite produzir o filme do jeito que eu imagino?”, questiona o diretor, que também é letrista e aproveitou canções românticas guardadas para dar forma à narrativa.

O impacto foi imediato. Após o lançamento do trailer, a protagonista virtual do filme chegou a fechar contrato publicitário com uma joalheria da cidade de Hyderabad, evidenciando que personagens gerados por computador já podem ocupar espaços antes reservados a estrelas humanas.

IA como ferramenta cotidiana no cinema indiano

O caso de Anchalia não é isolado. Na Índia, a inteligência artificial vem sendo incorporada tanto por cineastas independentes quanto por grandes produções. Diretores renomados passaram a usar a tecnologia para pré-visualizar cenas complexas, testar ideias antes de investir grandes orçamentos e acelerar processos criativos.

O diretor Jithin Laal, por exemplo, utilizou IA nas fases iniciais do sucesso Ajayante Randam Moshanam (ARM), em língua malaiala. Ele recorreu à tecnologia para explicar visualmente um sistema complexo de travas à equipe de efeitos visuais — algo que, segundo ele, seria difícil de comunicar apenas com palavras.

Já Arun Chandu apostou na inteligência artificial para viabilizar Gaganachari, uma sátira de ficção científica com orçamento de apenas 20 milhões de rúpias indianas — valor inferior ao custo médio de um casamento tradicional no país. Com ferramentas como Stable Diffusion e softwares gráficos, ele conseguiu criar cenas militares e ambientes pós-apocalípticos que, de outra forma, seriam inviáveis financeiramente.

No setor de som, designers como Sankaran AS e KC Sidharthan adotaram bibliotecas e ferramentas baseadas em IA para criar efeitos sonoros de forma mais ágil e intuitiva. Ideias que antes exigiam estúdios e equipamentos caros agora podem ser testadas quase instantaneamente.

Resistência ocidental e aceitação oriental

A postura indiana contrasta fortemente com a reação da indústria cinematográfica dos Estados Unidos. Em Hollywood, atores e roteiristas protagonizaram greves recentes contra o uso indiscriminado da IA, temendo a substituição do trabalho humano e a exploração indevida de imagens e vozes.

Na Índia, por outro lado, a tecnologia tem sido vista majoritariamente como uma aliada. Para Anchalia, a IA “democratizou a cinematografia”, permitindo que jovens cineastas, sem recursos ou conexões, consigam produzir filmes completos.

O limite da tecnologia: cultura, emoção e identidade

Apesar do entusiasmo, nem todos enxergam a inteligência artificial como solução definitiva. Cineastas experientes apontam limitações claras, especialmente quando se trata de profundidade emocional, simbolismo e referências culturais locais.

O diretor Shekhar Kapur já declarou que a IA é incapaz de criar mistério, medo ou amor genuínos. Já Guhan Senniappan relata dificuldades ao tentar usar prompts ligados à mitologia indiana: os resultados, segundo ele, eram genéricos ou irreconhecíveis, reflexo de modelos treinados majoritariamente com dados ocidentais.

Essas limitações tornam a intervenção humana indispensável, sobretudo em uma indústria marcada por enorme diversidade linguística e cultural. Em muitos casos, roteiristas, artistas tradicionais e engenheiros precisam ajustar manualmente os resultados gerados por IA para evitar erros fonéticos, visuais ou narrativos.

Rejuvenescimento digital e controvérsias éticas

O uso da IA para rejuvenescer atores veteranos também ganhou destaque no cinema indiano — geralmente com recepção positiva do público. No filme Rekhachithram (2025), o ator Mammootty, de 73 anos, aparece com aparência próxima aos 30, resultado de um trabalho detalhado de alimentação de modelos de IA com imagens de filmes antigos.

A prática, que gerou controvérsias em produções ocidentais, foi amplamente elogiada nas redes sociais indianas e ajudou o longa a se tornar um dos maiores sucessos do ano.

Ainda assim, questões éticas permanecem. Não há, na Índia, uma legislação específica que regulamente o uso de imagens e vozes geradas por IA, especialmente no caso de artistas falecidos. Advogados especializados alertam para o risco de apropriação indevida de identidade, além da ausência de proteção trabalhista para profissionais substituídos pela tecnologia.

IA como extensão — e não substituição — da criatividade

Para alguns cineastas, o caminho está no equilíbrio. Arun Chandu, por exemplo, está treinando modelos de IA com base em seu próprio estilo visual, buscando criar uma ferramenta que reflita sua identidade artística. Ainda assim, ele reconhece que os melhores resultados surgem quando a tecnologia trabalha em conjunto com a sensibilidade humana.

Experimentos acadêmicos e projetos de restauração de filmes antigos reforçam essa ideia. Pesquisadores alertam que a IA tende a “suavizar” contrastes e alterar símbolos visuais, correndo o risco de reescrever a história cinematográfica se não houver revisão cuidadosa.

No fim das contas, a pergunta não é se a inteligência artificial vai ocupar espaço no cinema, mas como ela será usada. Para alguns, ela representa liberdade criativa e inclusão. Para outros, um alerta sobre identidade, ética e memória cultural.

Como resume um dos cineastas ouvidos: a IA não é um monstro pronto para devorar a criatividade humana — mas também não é capaz de substituí-la.

RELATED ARTICLES
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Most Popular

Recent Comments