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Jogos de tabuleiro viram febre no Brasil como antídoto à ‘epidemia’ de telas

Entre dados, cartas e risadas, brasileiros redescobrem o prazer do encontro presencial e transformam luderias em refúgios analógicos contra o excesso digital.

Em um mundo dominado por notificações, feeds infinitos e telas onipresentes, um movimento silencioso — e surpreendentemente coletivo — tem ganhado força no Brasil: a retomada dos jogos de tabuleiro como forma de lazer, conexão social e até cuidado com a saúde mental.

Dados, cartas, tabuleiros, ampulhetas e peças coloridas voltaram ao centro da mesa. Literalmente. O que antes era visto como passatempo do passado hoje se transforma em experiência contemporânea, reunindo amigos, famílias e desconhecidos em torno de algo cada vez mais raro: atenção plena e presença real.

O fenômeno acompanha uma crescente preocupação com o uso excessivo de celulares e redes sociais. Estudos indicam que brasileiros passam mais de nove horas por dia diante de telas, o que tem reflexos diretos na ansiedade, na concentração e no bem-estar emocional. Nesse contexto, os jogos analógicos surgem como um contraponto saudável à lógica do estímulo rápido e contínuo do universo digital.

Menos celular, mais convivência

O arquiteto Roberto Mattos, de 31 anos, percebeu mudanças concretas na própria rotina desde que passou a frequentar encontros de jogos de tabuleiro com amigos. Segundo ele, o hábito reduziu em até seis horas semanais o tempo de uso do celular.

“A sensação é completamente diferente. O celular fica esquecido na mesa. Mesmo quando se perde, a experiência é boa. A ansiedade diminui, o foco está ali, no jogo e nas pessoas”, relata.

Jogos modernos de estratégia, cooperação e criatividade — como Ark Nova, Projeto Gaia, Duna Imperium e Spirit Island — ajudam a exercitar raciocínio, tomada de decisão e trabalho em grupo, além de criar um ambiente mais leve e colaborativo do que muitas experiências digitais competitivas.

Luderias: bares, restaurantes e tabuleiros

A popularização dos jogos impulsionou também o crescimento das chamadas luderias — espaços que unem gastronomia, convivência e um vasto acervo de jogos. Algumas reúnem centenas, outras mais de mil opções disponíveis ao público.

Esses locais se espalham por diversas capitais e cidades do interior, oferecendo desde jogos rápidos e descontraídos até experiências imersivas que podem durar horas. Mais do que jogar, o objetivo é criar vínculos, estimular conversas e fortalecer o senso de comunidade.

“É um verdadeiro refúgio analógico em tempos de mil telas”, define um dos empreendedores do setor.

Benefícios que vão além da diversão

Especialistas em saúde mental observam ganhos importantes associados à prática regular de jogos analógicos. Diferente das telas, que estimulam recompensas rápidas e picos constantes de dopamina, os jogos de tabuleiro ativam áreas do cérebro ligadas à atenção, ao planejamento, ao controle emocional e à tolerância à frustração.

Esse tipo de estímulo favorece relações mais equilibradas com o tempo, com o outro e consigo mesmo — algo cada vez mais buscado por adultos, jovens e famílias.

Para muitos pais, os jogos também se tornaram aliados no desafio de reduzir o tempo de tela de crianças e adolescentes. Ao transformar o jogo em um momento coletivo, o tabuleiro deixa de ser apenas entretenimento e passa a ser ponte entre gerações.

Uma febre que se espalha pelo país

De Norte a Sul, casas especializadas relatam aumento significativo na procura. Jogos como Dixit, Coup, Azul, Ticket to Ride e Dobble aparecem entre os mais jogados em diferentes estados, mostrando que a tendência ultrapassa regiões e perfis.

Além disso, eventos temáticos, encontros inclusivos, clubes de assinatura e até imersões offline — com dias inteiros dedicados aos jogos — reforçam que o movimento vai além da nostalgia: trata-se de uma nova forma de viver o tempo livre.

Em um cenário cada vez mais acelerado, os jogos de tabuleiro provam que, às vezes, a melhor conexão é aquela que não precisa de Wi-Fi.

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