Relatório inédito coloca a “saúde social” como prioridade global e mostra que estar desconectado pode aumentar o risco de doenças graves e morte precoce
Você já parou para pensar quantas pessoas, neste exato momento, se sentem sozinhas – mesmo cercadas de gente, conectadas o tempo todo e rolando a tela do celular sem parar?
Um relatório global inédito da Organização Mundial da Saúde (OMS) acendeu um alerta: a solidão deixou de ser apenas um “sentimento ruim” para se consolidar como uma ameaça real à saúde pública. De acordo com as novas estimativas, a falta de conexão social está ligada a cerca de 871 mil mortes por ano no mundo, o equivalente a 100 pessoas morrendo a cada hora por causas associadas à solidão.
O documento, resultado do trabalho da Comissão da OMS sobre Conexão Social, analisou dados de 2014 a 2019 e traz uma mensagem direta: estar desconectado socialmente pode ser tão perigoso quanto fumar, ser sedentário, viver com obesidade ou respirar ar poluído.
“Na era em que as possibilidades de conexão são infinitas, cada vez mais pessoas se sentem isoladas e solitárias”, alertou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, ao apresentar o relatório.
A OMS chama esse conjunto de impactos de “saúde social” e propõe olhar para ela com a mesma seriedade que damos à saúde física e mental.
O que é, afinal, “saúde social”?
Para entender o problema, o relatório diferencia três conceitos que costumam ser usados como sinônimos no dia a dia, mas não são iguais: conexão social, isolamento social e solidão.
Conexão social
É um termo guarda-chuva que reúne três dimensões importantes:
- Estrutura: tamanho e formato da rede de relações (família, amigos, colegas, vizinhança, comunidade);
- Função: se essa rede realmente oferece apoio concreto e emocional quando a pessoa precisa;
- Qualidade: se essas relações são saudáveis, respeitosas e satisfatórias.
Ou seja: não basta ter uma lista enorme de contatos, seguidores ou grupos de WhatsApp. É possível estar cercado de gente e, ainda assim, sentir que ninguém está de fato presente.
Isolamento social
É a ausência ou grande redução de vínculos e interações com outras pessoas. Aqui, o problema é principalmente estrutural: a rede é pequena ou quase inexistente. É mais comum em idosos que moram sozinhos, pessoas com baixa mobilidade, moradores de áreas remotas ou em situação de vulnerabilidade social.
Solidão
Já a solidão é uma experiência subjetiva. Ela acontece quando existe um descompasso entre o nível de conexão que a pessoa gostaria de ter e aquilo que ela realmente vive.
Em outras palavras: alguém pode estar rodeado de gente e, ainda assim, sentir que suas relações não são profundas, verdadeiras ou acolhedoras.
Toda solidão é igual? Não.
A OMS destaca que sentir solidão, em alguns momentos da vida, é normal e até esperado. Há dois tipos principais:
- Solidão transitória:
Surge em respostas a eventos marcantes, como mudar de cidade, passar por um divórcio, iniciar em um novo trabalho ou viver um luto. É um “sinal de alerta” parecido com a fome: um incômodo que nos empurra para buscar mais conexão. - Solidão crônica:
É aquela que se instala e permanece. Alguns especialistas a definem como a solidão que dura dois anos ou mais. Nesse caso, o corpo passa a viver sob um estado constante de estresse, e o que era um alerta vira um problema de saúde.
É justamente essa solidão crônica que mais preocupa a OMS, por estar associada a maior risco de doenças graves e morte.
Como a falta de conexão sabota a saúde?
O relatório aponta três grandes caminhos pelos quais a solidão e o isolamento social impactam a saúde física e mental.
1. Caminho biológico: o organismo em estado de alerta
A falta de conexão social prolongada pode desencadear um tipo de estresse crônico, que afeta:
- níveis de cortisol (hormônio do estresse);
- pressão arterial;
- funcionamento do sistema imunológico;
- processos inflamatórios no corpo.
Esse “modo de alerta permanente” aumenta o risco de doença cardíaca coronariana, acidente vascular cerebral (AVC), diabetes e outros problemas crônicos.
Metanálises citadas pelo relatório mostram que solidão ou isolamento social estão associados a:
- aumento de cerca de 29% no risco de desenvolver doença cardíaca coronariana;
- aumento de cerca de 32% no risco de AVC.
2. Caminho psicológico: mais ansiedade e depressão
A solidão prolongada também aumenta a chance de:
- depressão,
- ansiedade,
- sensação de desesperança,
- baixa autoestima.
Um estudo citado pela comissão revela que adultos que frequentemente se sentem sozinhos têm mais que o dobro do risco de desenvolver depressão.
3. Caminho comportamental: hábitos que viram armadilhas
Quando a solidão dói, muitas pessoas tentam aliviar esse vazio com comportamentos que, a médio e longo prazo, prejudicam ainda mais a saúde, como:
- aumento do consumo de álcool e cigarro;
- alimentação desequilibrada;
- sedentarismo;
- uso excessivo e compulsivo de telas, redes sociais e jogos.
O resultado é um círculo vicioso: quanto mais a pessoa se isola, mais frágil fica a saúde – e quanto mais a saúde piora, mais difícil parece retomar vínculos e pedir ajuda.
Quem está se sentindo mais sozinho?
Embora a solidão apareça em todas as idades, a comissão da OMS calcula que, entre 2014 e 2023, a prevalência global foi de 15,8% – ou seja, 1 em cada 6 pessoas viveu solidão nesse período.
Os dados mostram que ela varia conforme a faixa etária:
- Adolescentes (13 a 17 anos): cerca de 20,9% relatam solidão;
- Jovens adultos (18 a 29 anos): cerca de 17,4%;
- Adultos (30 a 59 anos): em torno de 15,1%;
- Idosos (60 anos ou mais): cerca de 11,8% em solidão – mas com taxas mais altas de isolamento social.
Ou seja: os mais jovens se sentem mais solitários, enquanto os mais velhos tendem a estar mais isolados fisicamente. A OMS também aponta que a solidão é mais comum em países de baixa renda, onde quase 1 em cada 4 pessoas se sente solitária.
Outro ponto importante: quem enfrenta solidão e isolamento social na infância e na adolescência corre maior risco de carregar esses padrões para a vida adulta. Ao mesmo tempo, isso abre uma janela de oportunidade: investir em conexão social desde cedo pode mudar trajetórias inteiras.
Estamos mesmo mais solitários?
Não há dados históricos suficientes para comparar, com precisão, o nível de solidão de hoje com o de décadas ou séculos passados. Mas duas visões costumam aparecer no debate:
- Teoria da “comunidade perdida”:
Defende que a modernidade – marcada pela urbanização, ritmo acelerado, trabalho competitivo e tecnologia – teria produzido mais individualismo e laços sociais mais frágeis. - Visão da “nova conexão”:
Argumenta que a modernidade, apesar de desafios, também criou novas formas de vínculo, especialmente para grupos que sempre estiveram à margem, como comunidades de pessoas com deficiência, LGBTI+, minorias raciais e outras.
O relatório da OMS não fecha essa discussão com nostalgia nem com rejeição à tecnologia. Em vez disso, propõe um desafio: usar as ferramentas digitais para aproximar, e não para aprofundar buracos afetivos.
Quando a solidão entra na agenda dos países
Alguns governos já entenderam que a solidão se tornou um problema de saúde pública:
- O Japão criou um cargo voltado para enfrentar a solidão e o isolamento social;
- O Reino Unido estruturou uma secretaria específica para o tema;
- Em 2023, os Estados Unidos lançaram o relatório “Our Epidemic of Loneliness and Isolation”, tratando o fenômeno como uma epidemia moderna.
Ainda assim, a OMS aponta que apenas 4,1% dos Estados-membros da organização possuem políticas nacionais específicas para tratar da conexão social, da solidão e do isolamento.
A recomendação da comissão é clara: a conexão social deve ser tratada como prioridade de saúde pública, com políticas, pesquisa, financiamento e programas comunitários constantes.
E o que isso tem a ver com a nossa rotina?
Na vida real, a solidão aparece em detalhes que muitas vezes passam despercebidos. Pode estar:
- na pessoa que evita marcar encontros por achar que “vai atrapalhar”;
- no jovem que passa horas e horas nas redes sociais sem sentir que pode ser ele mesmo;
- no idoso que não recebe visita, ligação ou mensagem há semanas;
- em quem mora em grandes cidades, mas não conhece nem o nome dos vizinhos.
A OMS reforça que a responsabilidade por enfrentar o problema não é só individual. Também passa por:
- cidades com espaços de convivência e cultura;
- escolas que valorizem vínculo, empatia e não apenas desempenho;
- ambientes de trabalho menos tóxicos e mais cooperativos;
- políticas públicas que reduzam desigualdades e exclusão.
Ao mesmo tempo, cada pessoa pode dar pequenos passos: retomar uma amizade, participar de um grupo comunitário, procurar atividades culturais ou esportivas, buscar ajuda profissional quando percebe que a solidão está virando peso demais.
Solidão não é frescura: é um alerta de saúde
O recado da OMS é duro, mas necessário: a solidão crônica mata – e já está matando em silêncio.
Colocar a saúde social no centro do debate é reconhecer algo básico: ninguém nasceu para viver totalmente sozinho. Todos precisamos ser vistos, ouvidos e acolhidos.
Falar de conexões, hoje, é falar de saúde.
E, muitas vezes, o primeiro passo para enfrentar uma epidemia silenciosa é algo que parece simples: mandar uma mensagem sincera, bater na porta de um amigo, aceitar um convite ou olhar com mais atenção para quem está sempre “bem demais” nas redes, mas isolado fora delas.


